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O Manual do Marido Tipo 1 – Aprenda a conviver com quem tem diabetes

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Quando diagnosticada em 1983 aos 19 anos de idade, Raquel, minha esposa, a TiaBeth desta página, procurou aprender tudo sobre a diabetes tipo 1. Naquele tempo não havia internet, então ela comprou livros sobre o assunto. O medo das complicações a deixaram bastante apreensiva e por causa disso decidiu fazer um controle rígido de seus níveis de glicose. O resultado foi uma série de hipoglicemias, que chegou a levá-la ao coma por mais de uma vez. Na década de 80, os aparelhos para monitoramento da glicemia, glicosímetros, eram precários e inacessíveis, diferentemente dos dias atuais que têm maior precisão e são até recebidos gratuitamente.

No ano de 2000 eu a conheci, nos casamos e vivemos juntos desde então. Confesso que a diabetes de TiaBeth me proporcionou grandes sustos no início de nossa relação. Nada sabia sobre esta condição, visto que em minha família ninguém tinha sido diagnosticado com esta doença. Lembrava-me apenas que, quando bem jovem, um vizinho possuía uma irmã diabética que não saía para brincar com outras crianças. E na minha sabedoria juvenil, pensei que diabetes devia ser algo realmente grave, suposição que tive por longo tempo.

Estando impotente diante de constantes sustos causados pelas hipoglicemias de TiaBeth, a fim de desmistificar por completo e combater esta situação, tão logo passamos a morar juntos resolvi aprender, literalmente, como funcionava sua diabetes.

Por um mês, como uma sombra, segui seus passos, medindo sua glicemia em todos os momentos. Ela não se importou, acreditando que talvez logo desistiria. Para isso, municiei-me com os suprimentos adequados, um monte de tiras para glicosímetro.

Anotava em um bloco os números  de sua glicemia antes de qualquer refeição refazendo as medições em até duas horas depois das refeições quando a insulina de ação rápida (Humalog) aplicada já não mais fazia efeito. Verificava também se as doses tomadas estavam compatíveis. Se a glicemia estivesse alta, ela na mesma hora a corrigia. Essa experiência também serviu para conhecer um pouco mais na prática sobre o índice glicêmico e quantidade de calorias dos alimentos.

Apesar de conhecer a importância da contagem de carboidratos, TiaBeth utilizava, e ainda utiliza, o método empírico quando aplica sua insulina: – ela observa os elementos no prato e faz um cálculo mental aproximado da dose a tomar de insulina rápida conforme experiência pessoal. Pode parecer complicado, mas com o tempo basta olhar o tipo e quantidade de comida que tal cálculo é imediato. A rotina ajuda muito nesses casos.

Após o mês de acompanhamento rigoroso, encerrei os trabalhos e ambos, eu e TiaBeth, sabíamos muito mais sobre o funcionamento de sua diabetes do que antes. Foi um trabalho cansativo, mas posso dizer que foi para a vida toda.

E graças a isto, cheguei a algumas conclusões que acredito ser de interesse de muitos. Irei compartilhar abaixo algumas delas com vocês, mas lembro que cada indivíduo tem suas próprias peculiaridades e genética. A solução indicada para uma pessoa, necessariamente não funciona para outra, mesmo que embasada em estudos científicos. Mas sempre se aproveita algo.

1. Pela manhã era necessário tomar o dobro de insulina da noite para surtir o mesmo efeito

Enquanto uma unidade de insulina reduzia 40 mg/dL pela manhã, pela noite uma unidade de insulina reduzia 80 mg/dL. Os valores iam se modificando à partir da tarde. Isso foi uma das conclusões mais importantes que tirei, pois tomar a mesma dose de insulina da manhã para corrigir a mesma glicemia pela noite, poderia causar uma hipoglicemia noturna, algo que ocorria com certa frequência. Depois desta descoberta reduziu-se consideravelmente os casos.

2. Alguns alimentos aumentavam a glicemia após o término da eficácia da insulina de ação rápida

Era o caso de alimentos gordurosos ou quando havia o consumo de grande quantidade de carboidratos. Significa que algumas horas depois de comer este tipo de refeição, deve-se medir a glicose. Nestes casos, ao dormir, se a glicemia estiver normal, a tendência é acordar com ela mais alta. Talvez esta seja a causa do tal “fenômeno da madrugada”.

3. A atividade física provocava um efeito tardio sobre os níveis de glicose

Ou seja, ela reduzia a glicemia algumas horas depois de realizada. Por isso deve-se tomar insulina com moderação após a prática de atividade física para evitar hipoglicemia.

4. Medir glicose durante as refeições não adianta de nada

Medir a glicose após iniciada a refeição não serve de nada. Nesta hora os níveis de glicemia encontram-se em transição. Qualquer conclusão baseada na informação do glicosímetro pode induzir a erro. Tome cuidado.

5. Durante refeições, deve-se tomar a insulina de ação rápida só após o prato estar servido

Ou logo após consumir a refeição. Isto porque já ocorreu dela aplicar com antecedência e ficar com hipoglicemia devido à demora em ser servido o prato. Além do mais, precisa ter certeza da quantidade que irá digerir. A comida pode não estar ao gosto, né?! Fique tranquilo, os níveis de açúcar no sangue não explodem se você aplicar a insulina um pouco após de iniciada a refeição.

6. Quanto mais insulina se toma de uma vez só, maior a chance de errar a dose

Tomar uma dose elevada de insulina é o caminho certo para uma hipoglicemia severa. Se você toma muita insulina de uma vez com frequência, é porque você está se alimentando completamente errado. É preciso mudar a sua dieta. A não ser, é claro, que tenha esquecido de aplicar após uma refeição anterior. Quando for aplicar não esqueça de considerar a hora para saber qual a eficácia da insulina neste horário.

7. Comer sempre o mesmo tipo de refeição é a melhor maneira de manter uma glicemia estável

Em restaurante self-service, tome cuidado com frituras e as variações de cardápio, pois estão sempre à mão. Nada demais variar de vez em quando, desde que com moderação.

8. Após um episódio de hipoglicemia severa, manter um pouco elevado o nível de glicose não faz mal nenhum

Os familiares agradecem.

9. Coca cola regular é um excelente remédio para se recuperar de uma hipoglicemia

Tá certo, Coca Cola é o primeiro item da lista de pior alimento do mundo, mas é um salva-vidas. Muita gente recomenda suco de laranja. Mas tenha sempre uma garrafa de Coca Cola regular (com açúcar) em casa, sendo que aquele restinho que ninguém toma, já sem gás, é excelente para essas horas, pois é doce e fácil de engolir. Meio copo pequeno recupera fácil de uma hipoglicemia moderada, mas se o caso for grave (40 mg/dL ou menos), não tenha medo, tome um copo inteiro ou uma lata.

10. Em caso de convulsões, não faça nada, espere elas acabarem para agir

Convulsão é inevitável na vida de um diabético do tipo 1. É preciso ter muito sangue frio nesta hora, pois é uma situação chocante. Durante esta hora não há muito o que fazer, pois a pessoa fica incapaz de engolir qualquer coisa e induzir algo pode ser perigoso por causa do risco de sufocamento. Uma estratégia para enfrentá-la, isso se você tiver coragem, seria aplicar uma tenebrosa injeção de emergência chamada Glucagon. Eu tinha o Glucagon, mas nunca usei, perdeu a validade. Não dê balas ou pastilhas. Se a pessoa puder beber algo doce (como aquela Coca Cola que mencionei anteriormente), ofereça lentamente. Caso não tenha condições nem para isso, tente colocar diretamente açúcar sob a língua, ou forneça algo de que a pessoa seja capaz de ingerir. Existe a opção de sachês de glicose. Já existe o Glucagon Nasal, que infelizmente ainda não chegou no Brasil. Certifique-se nesta hora de mantê-la confortável, pois quando se recupera poderá sentir dores dos hematomas, no caso de uma queda.

11. Pastilhas de glicose são ótimas para corrigir a glicemia e melhorar a hipoglicemia moderada

Mas se não encontrar, você pode usar pastilhas Mento’s. Eu tenho um “fornecedor” no Centro da cidade, onde compro para mim e para TiaBeth. Eu mesmo sou um ávido consumidor das pastilhas Mento’s, e meu dentista agradece.

12. Refeições leves pela noite, ou mudanças de dieta sempre provocavam hipoglicemias noturnas

Portanto tome cuidados extras nestas ocasiões. Tome menos insulina quando passar por esta situação.

13. Ao sair pela noite apenas para tomar bebida alcoólica verifique sua glicose com maior frequência

O álcool em si já reduz os níveis de glicose, seja bebida fermentada ou destilada, tanto faz. Se tomar insulina é hipoglicemia certa. É claro, qualquer pessoa deve consumir álcool com moderação, pois até quem não tem diabetes pode ter hipoglicemia. TiaBeth toma bebidas alcoólicas com certa frequência e nunca teve problemas. Só me lembro dela ter passado mal num dia apenas, e por causa de um drink diferente: “Tinha uma fruta nesta bebida que não me fez bem”, disse ela. Depois disso, nunca mais passou mal de novo.

14. Se quiser reduzir o índice A1C e os altos e baixos de glicose, a melhor maneira para isso é fazer medições frequentes.

Antes e após as refeições e também em momentos intermediários para saber “o quanto andas” a glicose, fazendo as correções na hora.

Isso foi um resumo de minhas observações enquanto procurava aprender como funcionava a diabetes de TiaBeth.

Espero que esta experiência pessoal tenha algum proveito para vocês, principalmente se for familiar ou cônjuge tipo 1, se já tem diabetes ou mesmo se tiver sido recém diagnosticado. Acreditem, a melhor maneira de se conviver com a diabetes é aprender tudo sobre ela. Fique atento e faça seu melhor. Depois do aprendizado, esta condição passará a ser um mero detalhe em sua vida.

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Ney Limonge é psicanalista, engenheiro elétrico e casado com Raquel Limonge, diabética do tipo 1 e protagonista das suas histórias. Escreve o blog Psicoanalisando quando lhe sobra tempo e também o Blog da TiaBeth. Ele não tem diabetes.

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