{"id":16284,"date":"2017-09-19T18:09:43","date_gmt":"2017-09-19T21:09:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/?p=16284"},"modified":"2017-09-20T16:03:53","modified_gmt":"2017-09-20T19:03:53","slug":"como-a-grande-industria-alimenticia-viciou-o-brasil-em-junk-food","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/index.php\/2017\/09\/19\/como-a-grande-industria-alimenticia-viciou-o-brasil-em-junk-food\/","title":{"rendered":"Como a grande ind\u00fastria aliment\u00edcia viciou o Brasil em Junk Food"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_16287\" aria-describedby=\"caption-attachment-16287\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt0.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16287\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt0.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt0.jpg 1000w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt0-300x195.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt0-768x499.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt0-765x496.jpg 765w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16287\" class=\"wp-caption-text\">\u00c0 medida que o crescimento diminui nos pa\u00edses ricos, as empresas de alimentos ocidentais se expandem<br \/>acintosamente nos pa\u00edses em desenvolvimento, contribuindo para obesidade e problemas de sa\u00fade.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>FORTALEZA<\/strong>, Brasil \u2014 Gritos de crian\u00e7as soavam na manh\u00e3 quente e \u00famida, enquanto uma mulher empurrava um carrinho branco e reluzente pelas ruas esburacadas e repletas de lixo espalhado. Ela fazia entregas em algumas das casas mais pobres desta cidade litor\u00e2nea, levando sobremesas l\u00e1cteas, biscoitos e outros alimentos industrializados aos clientes situados em seu trajeto.<\/p>\n<p>Celene da Silva, 29, \u00e9 uma de milhares de revendedoras porta a porta da Nestl\u00e9 que ajudam o maior conglomerado de alimentos industrializados do mundo a expandir seu alcance para 250 mil casas nos recantos mais long\u00ednquos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Enquanto entregava v\u00e1rias embalagens da sobremesa l\u00e1ctea Chandelle, de Kit-Kats e do cereal infantil Mucilon, algo chamava a aten\u00e7\u00e3o sobre seus clientes: muitos estavam visivelmente acima do peso, incluindo as crian\u00e7as pequenas.<\/p>\n<p>Ela apontou para uma casa e sacudiu a cabe\u00e7a ao lembrar o modo como o chefe da fam\u00edlia, um homem com obesidade grave, morreu na semana anterior: \u201cele comeu um peda\u00e7o de bolo e morreu enquanto dormia\u201d, recordou.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16288\" aria-describedby=\"caption-attachment-16288\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16288\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt2.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1366\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt2.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt2-1000x667.jpg 1000w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt2-177x118.jpg 177w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16288\" class=\"wp-caption-text\">Vendedoras como da Silva fazem entregas regulares para a Nestl\u00e9 em 250 mil casas brasileiras e, com isso, arrecadam um bom dinheiro.\u00a0CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>O ex\u00e9rcito de vendas diretas da Nestl\u00e9 faz parte de uma mudan\u00e7a mais ampla na estrat\u00e9gia das ind\u00fastrias aliment\u00edcias, que inclui a entrega de junk food e bebidas a\u00e7ucaradas consumidas no Ocidente at\u00e9 os rinc\u00f5es mais isolados da Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica e \u00c1sia. Enquanto suas vendas caem nos pa\u00edses mais ricos, as multinacionais do g\u00eanero aliment\u00edcio, como Nestl\u00e9, PepsiCo e General Mills, aumentam sua presen\u00e7a de forma acintosa nos pa\u00edses em desenvolvimento, comercializando seus produtos t\u00e3o ostensivamente que chegam a transtornar os h\u00e1bitos alimentares tradicionais do Brasil, Gana e \u00cdndia.<\/p>\n<p>O New York Times analisou os registros de empresas, estudos epidemiol\u00f3gicos e relat\u00f3rios governamentais, assim como realizou entrevistas com v\u00e1rios nutricionistas e especialistas em sa\u00fade do mundo todo que revelam uma mudan\u00e7a radical na maneira como os alimentos s\u00e3o produzidos, distribu\u00eddos e anunciados em grande parte do mundo. Isso, segundo especialistas em sa\u00fade p\u00fablica, est\u00e1 contribuindo para uma nova epidemia de diabetes e problemas card\u00edacos; doen\u00e7as cr\u00f4nicas associadas \u00e0s elevadas taxas de obesidade de regi\u00f5es que h\u00e1 apenas uma d\u00e9cada lutavam para combater a fome e a desnutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A nova realidade pode ser compreendida com um \u00fanico e incontest\u00e1vel fato: no mundo todo, o n\u00famero de obesos superou o de indiv\u00edduos com baixo peso. Simultaneamente, a disponibilidade crescente de alimentos altamente cal\u00f3ricos e pobres em nutrientes est\u00e1 gerando um novo tipo de desnutri\u00e7\u00e3o, caracterizada por um n\u00famero cada vez maior de pessoas com sobrepeso que, ao mesmo tempo, tem uma nutri\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cA hist\u00f3ria vigente \u00e9 que este \u00e9 o melhor dos mundos poss\u00edveis: alimentos baratos e amplamente dispon\u00edveis. Se voc\u00ea n\u00e3o analisa a quest\u00e3o a fundo, faz sentido\u201d, afirmou Anthony Winson, que estuda pol\u00edtica econ\u00f4mica de nutri\u00e7\u00e3o na Universidade de Guelph, em Ont\u00e1rio. Um olhar mais cuidadoso, entretanto, revela uma hist\u00f3ria muito diferente, conclui. \u201cPara deixar claro: a forma como estamos nos alimentando est\u00e1 nos matando\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo alguns cr\u00edticos dos alimentos processados reconhecem que h\u00e1 v\u00e1rios fatores relacionados ao aumento da obesidade, incluindo gen\u00e9tica, urbaniza\u00e7\u00e3o, renda crescente e aumento do sedentarismo. Os executivos da Nestl\u00e9 afirmam que seus produtos ajudaram a diminuir a fome e a fornecer nutrientes essenciais, e que a empresa diminuiu a quantidade de sal, gordura e a\u00e7\u00facar de milhares de itens para torn\u00e1-los mais saud\u00e1veis. Por\u00e9m, Sean Westcott, chefe de pesquisa e desenvolvimento de alimentos da Nestl\u00e9, admitiu que a obesidade foi um efeito colateral inesperado surgido depois que alimentos processados de baixo custo se tornaram mais acess\u00edveis.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sab\u00edamos qual seria o impacto\u201d, disse ele.<\/p>\n<p>Parte do problema, acrescentou, \u00e9 a tend\u00eancia natural que as pessoas t\u00eam de comer demais quando podem comprar mais alimentos. A Nestl\u00e9, afirmou ele, se esfor\u00e7a para educar os consumidores quanto ao tamanho adequado das por\u00e7\u00f5es e para produzir e comercializar alimentos que equilibrem \u201cprazer e nutri\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Hoje h\u00e1 mais de 700 milh\u00f5es de pessoas obesas no mundo, sendo 108 milh\u00f5es crian\u00e7as, de acordo com uma pesquisa publicada recentemente no\u00a0<em>New England Journal of Medicine<\/em>. A preval\u00eancia da obesidade dobrou em 73 pa\u00edses desde 1980, contribuindo para 4 milh\u00f5es de mortes prematuras, segundo o estudo.<\/p>\n<h2 class=\"interactive-headline\">O aumento da obesidade no mundo<\/h2>\n<p>As taxas de obesidade nos Estados Unidos, no Pac\u00edfico Sul e no Golfo P\u00e9rsico est\u00e3o entre as mais altas do mundo \u2013 mais de um a cada quatro americanos est\u00e1 obeso. Mas a obesidade, definida como um \u00edndice de massa corp\u00f3rea acima de 30, cresceu mais rapidamente nos \u00faltimos 30 anos nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica e \u00c1sia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16285\" aria-describedby=\"caption-attachment-16285\" style=\"width: 1036px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-16285 size-full\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt1.jpg\" alt=\"\" width=\"1036\" height=\"753\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt1.jpg 1036w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt1-300x218.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt1-768x558.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt1-1000x727.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 1036px) 100vw, 1036px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16285\" class=\"wp-caption-text\">Por Audrey Carlsen | Fonte: Instituto de M\u00e9tricas e Avalia\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade. Dados n\u00e3o dispon\u00edveis para Guiana Francesa e Saara Ocidental.<\/figcaption><\/figure>\n<p>O problema se refere tanto \u00e0 economia quanto \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que as multinacionais avan\u00e7am nos pa\u00edses em desenvolvimento, elas alteram a agricultura local, estimulando agricultores a trocar as culturas de subsist\u00eancia por commodities mais rent\u00e1veis, como cana-de-a\u00e7\u00facar, milho e soja: a base de muitos produtos aliment\u00edcios industrializados.<\/p>\n<p>\u00c9 um ecossistema econ\u00f4mico que atrai lojas familiares, grandes varejistas, fabricantes e distribuidores de alimentos e pequenos vendedores como da Silva.<\/p>\n<p>Em lugares t\u00e3o distantes como a China, \u00c1frica do Sul e Col\u00f4mbia, o crescente poder das grandes empresas de alimentos tamb\u00e9m se traduz em influ\u00eancia pol\u00edtica, o que impede que autoridades em sa\u00fade p\u00fablica consigam taxar refrigerantes ou criar leis destinadas a restringir os impactos dos alimentos processados na sa\u00fade.<\/p>\n<p>Para um n\u00famero crescente de nutricionistas, a epidemia da obesidade est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0s vendas de alimentos industrializados, que cresceram 25% no mundo todo de 2011 a 2016, em compara\u00e7\u00e3o com 10% nos Estados Unidos, de acordo com a Euromonitor, uma empresa de pesquisa de mercado. Uma mudan\u00e7a ainda mais dr\u00e1stica ocorreu em rela\u00e7\u00e3o aos refrigerantes carbonatados: as vendas na Am\u00e9rica Latina dobraram desde 2000, ultrapassando o consumo na Am\u00e9rica do Norte em 2013, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>A mesma tend\u00eancia se reflete no mercado de fast food, que obteve um crescimento mundial de 30% no mundo de 2011 a 2016, comparado com 21% nos Estados Unidos, de acordo com a Euromonitor. A Domino\u2019s Pizza, por exemplo, abriu, em 2016, 1.216 lojas \u2013 uma \u201ca cada sete horas\u201d, segundo seu relat\u00f3rio anual \u2013 todas, com exce\u00e7\u00e3o de 171, fora dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cEm uma \u00e9poca em que o crescimento ocorre de forma mais moderada nas economias estabelecidas, acredito que a postura mais en\u00e9rgica no mercado emergente ir\u00e1 prevalecer\u201d, afirmou recentemente o diretor-executivo da Nestl\u00e9 a investidores. Os mercados em desenvolvimento hoje s\u00e3o respons\u00e1veis por 42% das vendas da empresa.<\/p>\n<p>Para algumas empresas do ramo, isso significa mirar especificamente no p\u00fablico jovem, como Ahmet Bozer, presidente da Coca-Cola, descreveu a investidores em 2014. \u201cMetade da popula\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o tomou uma Coca nos \u00faltimos 30 dias\u201d, disse. \u201cH\u00e1 600 milh\u00f5es de adolescentes que n\u00e3o tomaram uma Coca na \u00faltima semana. Ent\u00e3o temos uma enorme oportunidade\u201d.<\/p>\n<p>Aqueles que defendem a ind\u00fastria afirmam que os alimentos processados s\u00e3o essenciais para alimentar um mundo cada vez maior e mais urbanizado de pessoas, muitas delas com renda crescente e que demandam praticidade.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o vamos acabar com todas as f\u00e1bricas e voltar a cultivar apenas gr\u00e3os. Isso n\u00e3o faz sentido. N\u00e3o vai dar certo\u201d, disse Mike Gibney, professor em\u00e9rito de alimenta\u00e7\u00e3o e sa\u00fade na University College Dublin e consultor da Nestl\u00e9. \u201cSe eu pedisse para 100 fam\u00edlias brasileiras que parem de consumir alimentos processados, teria que me perguntar: o que elas comer\u00e3o? Quem as alimentar\u00e1? Quanto isso vai custar?\u201d<\/p>\n<p>De muitas formas, o Brasil \u00e9 um microcosmo de como rendimentos crescentes e pol\u00edticas governamentais fizeram com que a popula\u00e7\u00e3o vivesse mais tempo e com mais qualidade e tamb\u00e9m serviram para erradicar amplamente a fome. Mas, agora o Brasil enfrenta um novo e dif\u00edcil desafio de nutri\u00e7\u00e3o: na \u00faltima d\u00e9cada, a taxa de obesidade do pa\u00eds quase dobrou para 20%, e a parcela de pessoas com sobrepeso praticamente triplicou, indo para 58%. A cada ano, 300 mil pessoas s\u00e3o diagnosticadas com diabetes tipo II, uma doen\u00e7a relacionada \u00e0 obesidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16323\" aria-describedby=\"caption-attachment-16323\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt14.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16323\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt14.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"232\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16323\" class=\"wp-caption-text\">Michel Temer atual presidente do Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>Tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o, no Brasil, a habilidade pol\u00edtica da ind\u00fastria. Em 2010, uma coaliz\u00e3o de empresas de alimentos e bebidas brasileiras destruiu uma s\u00e9rie de medidas que buscavam limitar an\u00fancios de junk food destinados a crian\u00e7as. A \u00faltima amea\u00e7a veio do presidente Michel Temer, um pol\u00edtico de centro favor\u00e1vel ao setor empresarial cujos aliados conservadores do Congresso est\u00e3o procurando impedir essa s\u00e9rie de regula\u00e7\u00f5es e leis cuja inten\u00e7\u00e3o \u00e9 estimular uma alimenta\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cO que temos \u00e9 uma guerra entre dois regimes alimentares, uma dieta tradicional com alimentos de verdade, produzidos por agricultores locais, e os produtores de alimentos ultraprocessados, feitos para serem consumidos em excesso e que, em alguns casos, viciam\u201d, explicou Carlos A. Monteiro, professor de nutri\u00e7\u00e3o e sa\u00fade p\u00fablica na Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma guerra\u201d, afirmou, \u201cmas um dos regimes alimentares tem um poder desproporcionalmente maior ao do outro\u201d.<\/p>\n<h2>Entrega de porta em porta<\/h2>\n<p>Da Silva chega aos consumidores das favelas de Fortaleza, muitos dos quais n\u00e3o t\u00eam acesso imediato a supermercados. Ela defende o produto que vende, exaltando as informa\u00e7\u00f5es nutricionais dos r\u00f3tulos que se vangloriam de acrescentar vitaminas e minerais aos produtos.<\/p>\n<p>\u201cTodo mundo aqui sabe que os produtos da Nestl\u00e9 s\u00e3o bons\u201d, assegurou ao apontar para latas de Mucilon, um mingau para beb\u00eas cujo r\u00f3tulo diz: \u201ccont\u00e9m c\u00e1lcio e niacina\u201d, e tamb\u00e9m para as de Nescau 2.0, um achocolatado em p\u00f3 altamente a\u00e7ucarado.<\/p>\n<p>Ela tornou-se vendedora da Nestl\u00e9 dois anos atr\u00e1s, quando sua fam\u00edlia de cinco pessoas lutava para sobreviver. Embora o marido ainda esteja desempregado, a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 melhorando. Com os cerca de 570 reais por m\u00eas que ganha com a venda dos produtos Nestl\u00e9, conseguiu comprar uma geladeira nova, uma televis\u00e3o e um fog\u00e3o a g\u00e1s para a casa de tr\u00eas quartos da fam\u00edlia, que fica \u00e0 beira de um manguezal f\u00e9tido.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16289\" aria-describedby=\"caption-attachment-16289\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt3.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16289\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt3.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt3.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt3-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt3-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt3-1000x667.jpg 1000w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt3-177x118.jpg 177w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16289\" class=\"wp-caption-text\">Da Silva com os filhos e uma prima em sua casa em Fortaleza.\u00a0CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>O programa de venda porta a porta da empresa faz jus a um conceito articulado pela Nestl\u00e9 em seu relat\u00f3rio anual de acionistas em 1976 que mencionava que \u201ca integra\u00e7\u00e3o com o pa\u00eds anfitri\u00e3o \u00e9 um objetivo b\u00e1sico da nossa empresa\u201d. Iniciado h\u00e1 uma d\u00e9cada no Brasil, atende 700 mil \u201cconsumidores de baixa renda mensalmente\u201d, de acordo com o site da Nestl\u00e9. Apesar da crise econ\u00f4mica incessante no pa\u00eds, o programa vem crescendo 10% por ano, segundo Felipe Barbosa, supervisor da empresa.<\/p>\n<p>Ele afirmou que a queda na renda dos brasileiros pobres e trabalhadores na verdade beneficiou as vendas diretas. Isso porque, ao contr\u00e1rio da maioria da venda de alimentos por varejo, a Nestl\u00e9 oferece aos clientes um prazo de um m\u00eas para o pagamento das contas. O fato de as revendedoras \u2013 o programa emprega apenas mulheres \u2013 saberem quando seus clientes recebem o Bolsa Fam\u00edlia, um subs\u00eddio para fam\u00edlias de baixa renda, tamb\u00e9m ajuda nas vendas.<\/p>\n<p>\u201cA ess\u00eancia do nosso programa \u00e9 alcan\u00e7ar os pobres\u201d, revelou Barbosa. \u201cO que faz ele dar certo \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o pessoal entre a revendedora e o cliente\u201d.<\/p>\n<p>A Nestl\u00e9 procura, cada vez mais, descrever-se como l\u00edder em seu compromisso com a sociedade e a sa\u00fade. Duas d\u00e9cadas atr\u00e1s, designou-se como uma \u201cempresa de sa\u00fade e bem-estar em nutri\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, afirma, a empresa reformulou aproximadamente 9 mil produtos com o intuito de reduzir o sal, o a\u00e7\u00facar e a gordura, e distribuiu bilh\u00f5es de por\u00e7\u00f5es fortificadas com vitaminas e minerais. A Nestl\u00e9 destaca a seguran\u00e7a alimentar e a redu\u00e7\u00e3o do desperd\u00edcio de alimentos e trabalha com cerca de 400 mil agricultores no mundo todo para promover a agricultura sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em uma entrevista no novo e amplo campus de 50 milh\u00f5es de d\u00f3lares na periferia de Cleveland, Ohio, o chefe de pesquisa e desenvolvimento de alimentos, Westcott, disse que o programa de vendas porta a porta reflete outro slogan da empresa: a \u201ccria\u00e7\u00e3o de valores compartilhados\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCriamos valor compartilhado ao gerar microempres\u00e1rios: pessoas que conseguem montar seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio\u201d, afirmou. Uma empresa como a Nestl\u00e9 pode impulsionar o bem-estar de comunidades inteiras \u201cao enviar de fato mensagens positivas sobre nutri\u00e7\u00e3o\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>O cat\u00e1logo de alimentos da Nestl\u00e9 \u00e9 vasto e diferente do de outras empresas que produzem produtos para refei\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e fazem pouco esfor\u00e7o para se concentrar em ofertas saud\u00e1veis. A lista inclui o Nesfit, um cereal integral; iogurtes com baixo teor de gordura, como o Molico, que cont\u00e9m uma quantidade relativamente pequena de a\u00e7\u00facar (6 gramas); e uma variedade de cereais para crian\u00e7as que devem ser servidos com leite ou \u00e1gua e s\u00e3o fortificados com vitaminas, ferro e probi\u00f3ticos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16290\" aria-describedby=\"caption-attachment-16290\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt4.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16290\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt4.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1366\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt4.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt4-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt4-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt4-1000x667.jpg 1000w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt4-177x118.jpg 177w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16290\" class=\"wp-caption-text\">Alguns dos produtos Nestl\u00e9 \u00e0 venda em uma loja perto de Muana.\u00a0CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>Dr. Gibney, nutricionista e consultor da Nestl\u00e9, afirmou que a empresa merece reconhecimento por ter reformulado produtos para torn\u00e1-los mais saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Apesar dos 800 produtos que a Nestl\u00e9 afirma estarem dispon\u00edveis por meio de suas revendedoras, da Silva diz que seus clientes est\u00e3o mais interessados em cerca de duas d\u00fazias deles, praticamente todos a\u00e7ucarados, como Kit-Kats, o iogurte grego de frutas vermelhas cujo pote de 100 gramas cont\u00e9m 17 gramas de a\u00e7\u00facar; e o Chandelle Pa\u00e7oca, uma sobremesa l\u00e1ctea aromatizada com amendoim cuja embalagem do mesmo tamanho cont\u00e9m 20 gramas de a\u00e7\u00facar; apenas 5 gramas a menos do limite recomendado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, a Nestl\u00e9 patrocinava uma barca\u00e7a que entregava dezenas de milhares de embalagens de leite em p\u00f3, iogurte, sobremesas l\u00e1cteas de chocolate, biscoitos e balas a comunidades isoladas da bacia Amaz\u00f4nica. Desde que o barco interrompeu suas atividades em julho, donos de barcos privados assumiram a demanda.<\/p>\n<p>\u201cPor um lado, a Nestl\u00e9 \u00e9 l\u00edder mundial em \u00e1gua e f\u00f3rmulas para lactentes e em v\u00e1rios produtos l\u00e1cteos\u201d, ressaltou Barry Popkin, professor de nutri\u00e7\u00e3o da Universidade da Carolina do Norte. \u201cPor outro lado, eles est\u00e3o indo para os rinc\u00f5es do Brasil vender balas\u201d.<\/p>\n<p>Dr. Popkin acha que a venda porta a porta \u00e9 emblem\u00e1tica de uma nova era insidiosa em que as empresas n\u00e3o deixam de atender nenhuma casa, em uma tentativa de crescer e se tornarem essenciais para as comunidades do mundo em desenvolvimento. \u201cEles n\u00e3o est\u00e3o deixando nenhum canto do pa\u00eds de lado\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>Defensores da sa\u00fade p\u00fablica j\u00e1 haviam criticado a empresa antes. Nos anos 1970, a Nestl\u00e9 foi alvo de um boicote nos Estados Unidos por causa da comercializa\u00e7\u00e3o intensa de f\u00f3rmulas para lactentes nos pa\u00edses em desenvolvimento, consideradas por nutricionistas prejudiciais \u00e0 amamenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel. Em 1978, o presidente da Nestl\u00e9 Brasil, Oswaldo Ballarin, foi chamado para depor em audi\u00eancias do senado americano que tratavam da quest\u00e3o das f\u00f3rmulas para lactentes e foram amplamente divulgadas. Ballarin declarou que as cr\u00edticas eram obra da Igreja que visava \u201cdestruir o sistema de livre iniciativa\u201d.<\/p>\n<p>Nas ruas de Fortaleza, onde a Nestl\u00e9 \u00e9 admirada por sua origem su\u00ed\u00e7a e considerada uma empresa de alta qualidade, quase nunca se ouve algo negativo sobre ela.<\/p>\n<p>A casa de Joana D\u2019arc de Vasconcellos, 53, tamb\u00e9m vendedora, est\u00e1 repleta de animais de pel\u00facia da marca e decorada com certificados que recebeu em aulas de nutri\u00e7\u00e3o patrocinadas pela Nestl\u00e9. Em sua sala de estar, os porta-retratos com as fotos dos filhos com 2 anos, cada um diante de uma pilha de latas de f\u00f3rmulas para lactentes vazias, ocupam posi\u00e7\u00e3o de destaque. \u00c0 medida que o filho e a filha cresciam, ela substituiu os produtos por outros da marca feitos para crian\u00e7as, como Nido Kinder, um leite em p\u00f3 para crian\u00e7as pequenas; Chocapic, um cereal com sabor de chocolate; e o achocolatado em p\u00f3 Nescau.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16291\" aria-describedby=\"caption-attachment-16291\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt5.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16291\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt5.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt5.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt5-300x100.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt5-768x256.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt5-1000x333.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16291\" class=\"wp-caption-text\">Joana D\u2019arc de Vasconcellos com fotos de sua filha, Vittoria, e produtos da Nestl\u00e9. De Vasconcellos, \u00e0 direita, tem diabetes e hipertens\u00e3o. Vittoria, 17, tem hipertens\u00e3o e pesa mais de 135 quilos.CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cQuando meu filho era beb\u00ea, ele n\u00e3o gostava de comer at\u00e9 que eu comecei a lhe oferecer produtos da Nestl\u00e9\u201d, contou com orgulho.<\/p>\n<p>De Vasconcellos tem diabetes e hipertens\u00e3o. A filha de 17 anos, que pesa mais de 113 quilos, tem hipertens\u00e3o e s\u00edndrome do ov\u00e1rio polic\u00edstico, uma disfun\u00e7\u00e3o hormonal altamente relacionada \u00e0 obesidade. Muitos de seus parentes sofrem de uma ou mais doen\u00e7as associadas \u00e0 m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o: a m\u00e3e e duas irm\u00e3s t\u00eam diabetes e hipertens\u00e3o e o marido, hipertens\u00e3o. O pai morreu tr\u00eas anos atr\u00e1s depois de perder o p\u00e9 devido \u00e0 gangrena, uma complica\u00e7\u00e3o do diabetes.<\/p>\n<p>\u201cToda vez que vou ao posto de sa\u00fade, meus exames de diabetes est\u00e3o l\u00e1 em cima\u201d, contou. \u201cSeria muito dif\u00edcil voc\u00ea encontrar aqui uma fam\u00edlia que n\u00e3o tenha diabetes\u201d.<\/p>\n<p>De Vasconcellos tentou anteriormente vender Tupperware e produtos Avon porta a porta, mas muitos clientes n\u00e3o pagavam. Seis anos atr\u00e1s, depois de uma amiga lhe contar sobre o programa de vendas diretas da Nestl\u00e9, Vasconcellos se agarrou \u00e0 oportunidade.<\/p>\n<p>Ela diz que seus clientes nunca deixaram de pagar.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas t\u00eam que comer\u201d, explicou.<\/p>\n<h2 class=\"story-subheading story-content\" data-para-count=\"28\" data-total-count=\"17314\">Interfer\u00eancia da ind\u00fastria<\/h2>\n<p>Em maio de 2000, Denise Coitinho, \u00e0 \u00e9poca diretora de nutri\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, estava em uma festa de Dia das M\u00e3es na escola dos filhos quando seu celular tocou. Era o chefe de rela\u00e7\u00f5es governamentais da Nestl\u00e9. \u201cEle estava muito chateado\u201d, lembrou.<\/p>\n<p>A fonte de preocupa\u00e7\u00e3o da Nestl\u00e9 era uma nova pol\u00edtica adotada pelo Brasil e que pressionava a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. Se fosse seguida pela OMS, a organiza\u00e7\u00e3o recomendaria que crian\u00e7as de todo o mundo fossem amamentadas por seis meses, em vez da recomenda\u00e7\u00e3o anterior de quatro a seis meses, explicou.<\/p>\n<p>\u201cDois meses podem n\u00e3o parecer tanto, mas significam muita receita. Representam muita venda\u201d, esclarece Coitinho, que deixou o cargo em 2004 e agora trabalha como consultora de nutri\u00e7\u00e3o independente para, entre outros, as Na\u00e7\u00f5es Unidas. No fim, as empresas que produzem alimentos para lactentes conseguiram barrar a politica por um ano, revelou Coitinho; a Nestl\u00e9 afirmou, em resposta ao relato de Coitinho, que \u201cacredita que o leite materno seja a nutri\u00e7\u00e3o ideal para beb\u00eas\u201d e que apoia e promove as orienta\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil superestimar o poder econ\u00f4mico e o acesso pol\u00edtico dos conglomerados de alimentos e bebidas, respons\u00e1veis por 10% da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds e por empregar 1,6 milh\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>Em 2014, as empresas aliment\u00edcias doaram quase 500 milh\u00f5es de reais a membros do Congresso Nacional, um aumento de tr\u00eas vezes em rela\u00e7\u00e3o a 2010, de acordo com a Transpar\u00eancia Internacional Brasil. Um estudo lan\u00e7ado no ano passado pela organiza\u00e7\u00e3o revelou que mais da metade dos atuais legisladores federais do pa\u00eds foi eleita com doa\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria de alimentos antes de o Supremo Tribunal Federal proibir contribui\u00e7\u00f5es de empresas em 2015.<\/p>\n<p>O maior doador para candidatos do Congresso foi a gigante produtora de carnes JBS, que doou quase 350 milh\u00f5es de reais a candidatos. Em 2014, a Coca-Cola deu mais de 20 milh\u00f5es de reais em contribui\u00e7\u00f5es de campanha, e o McDonald\u2019s, cerca de 1.7 milh\u00e3o de reais.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16292\" aria-describedby=\"caption-attachment-16292\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt6.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16292\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt6.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt6.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt6-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt6-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt6-1000x667.jpg 1000w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt6-177x118.jpg 177w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16292\" class=\"wp-caption-text\">Uma recepcionista do McDonald\u2019s em S\u00e3o Paulo. A empresa doou 1,7 milh\u00e3o de reais a candidatos ao Congresso em 2014.\u00a0CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>Portanto, estava armado o palco para uma batalha pol\u00edtica descomunal quando, em 2016, o governo buscou promulgar regula\u00e7\u00f5es de amplo alcance para a ind\u00fastria aliment\u00edcia, visando reduzir a obesidade e outras doen\u00e7as. As medidas, que surgiram a partir das pol\u00edticas para amamenta\u00e7\u00e3o anteriores, inclu\u00edam alertas de publicidade para advertir os consumidores acerca dos altos n\u00edveis de a\u00e7\u00facar, sal e gorduras saturadas, assim como restri\u00e7\u00f5es na comercializa\u00e7\u00e3o para tornar menos tentadores alimentos altamente processados e bebidas a\u00e7ucaradas, em especial aqueles destinados a crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Tomando como exemplos os esfor\u00e7os bem-sucedidos do governo para reduzir a venda de tabaco, as novas regula\u00e7\u00f5es proibiram marcas como Pepsi e KFC de patrocinarem eventos esportivos e culturais.<\/p>\n<p>\u201cAchamos que o Brasil poderia ser um modelo para o resto do mundo, um pa\u00eds que coloca o bem-estar de seus cidad\u00e3os acima de tudo\u201d, disse Dirceu Raposo de Mello, ent\u00e3o diretor da Ag\u00eancia de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria, mais conhecida pela sigla Anvisa. \u201cInfelizmente, a ind\u00fastria aliment\u00edcia n\u00e3o pensava do mesmo modo\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16293\" aria-describedby=\"caption-attachment-16293\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt7.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16293\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt7.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt7.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt7-300x100.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt7-768x256.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt7-1000x333.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16293\" class=\"wp-caption-text\">Doces e barras de chocolate em uma pequena mercearia em S\u00e3o Paulo. Em um porto em Bel\u00e9m, Brasil, um barco que partir\u00e1 em dire\u00e7\u00e3o a Muana \u00e9 carregado com produtos da Nestl\u00e9.CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_16294\" aria-describedby=\"caption-attachment-16294\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt8.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16294\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt8.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt8.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt8-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt8-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt8-1000x667.jpg 1000w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt8-177x118.jpg 177w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16294\" class=\"wp-caption-text\">Ana Cl\u00e1udia Caranha e o filho, Gabriel, na volta de uma loja em Muan\u00e1, onde compraram alimentos para a semana, incluindo uma s\u00e9rie de produtos da Nestl\u00e9.CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>As ind\u00fastrias de alimentos atuaram de forma mais discreta, formando a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias da Alimenta\u00e7\u00e3o, um grupo lobista cujo conselho de vice-presidentes inclu\u00eda executivos da Nestl\u00e9, o gigante produtor de carnes americano Cargill e a Unilever, o conglomerado de alimentos europeu, dono de marcas como Hellmann\u2019s, \u00f3leo Mazola e Ben &amp; Jerry\u2019s. A associa\u00e7\u00e3o se recusou a comentar esta mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Nos primeiros dias das audi\u00eancias p\u00fablicas, a ind\u00fastria parecia estar disposta a negociar as regras, mas militantes de sa\u00fade afirmam que, por tr\u00e1s dos bastidores, os advogados e lobistas da ind\u00fastria aliment\u00edcia conduziam silenciosamente uma campanha ampla para impedir o processo.<\/p>\n<p>Acad\u00eamicos financiados pela ind\u00fastria come\u00e7aram a aparecer na TV para acusar as normas de serem economicamente desastrosas. Outros especialistas escreveram artigos em jornais, sugerindo que o exerc\u00edcio f\u00edsico e o controle mais rigoroso dos pais seriam mais eficazes que as regula\u00e7\u00f5es no combate \u00e0 obesidade infantil.<\/p>\n<p>O apelo mais eficiente da ind\u00fastria, garantem os analistas, foi sua den\u00fancia veemente das restri\u00e7\u00f5es de propaganda propostas como censura. A acusa\u00e7\u00e3o teve uma repercuss\u00e3o especial devido \u00e0s quase duas d\u00e9cadas de ditadura militar que terminaram em 1985.<\/p>\n<p>Em uma reuni\u00e3o, um representante da ind\u00fastria aliment\u00edcia acusou a Anvisa de tentar subverter a autoridade dos pais, afirmando que as m\u00e3es tinham o direito de decidir o que dar de comer aos filhos, lembrou Vanessa Schotz, que advoga em defesa da nutri\u00e7\u00e3o. Em outra reuni\u00e3o, conta ela, um representante da ind\u00fastria de brinquedos ficou de p\u00e9 e criticou com veem\u00eancia as regras de comercializa\u00e7\u00e3o propostas, afirmando que elas privariam as crian\u00e7as brasileiras dos brinquedos que \u00e0s vezes v\u00eam junto das refei\u00e7\u00f5es de fast food. \u201cEle disse que est\u00e1vamos matando os sonhos das crian\u00e7as, argumentando que elas valorizam mais os brinquedos do que os alimentos\u201d, recordou Schotz. \u201cFicamos estupefatos\u201d.<\/p>\n<p>Repreendida pelas cr\u00edticas da ind\u00fastria, a Anvisa retirou, no final de 2010, a maioria das restri\u00e7\u00f5es propostas.Restou apenas uma \u00fanica proposta para que os an\u00fancios inclu\u00edssem um alerta sobre alimentos e bebidas que prejudicam a sa\u00fade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vieram as a\u00e7\u00f5es judiciais.<\/p>\n<p>Ao longo de v\u00e1rios meses, grupos d\u00edspares da ind\u00fastria apresentaram 11 a\u00e7\u00f5es judiciais contra a Anvisa. Os requerentes inclu\u00edam a Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Ind\u00fastrias de Biscoitos, o lobby dos produtores de milho e uma associa\u00e7\u00e3o de empresas de chocolates, cacau e balas. Alguns dos processos alegavam que a regula\u00e7\u00e3o violava prote\u00e7\u00f5es constitucionais que garantiam a liberdade de express\u00e3o, enquanto outros afirmavam que n\u00e3o era compet\u00eancia da ag\u00eancia regular as ind\u00fastrias de alimentos e a propaganda.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16295\" aria-describedby=\"caption-attachment-16295\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt9.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16295\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt9.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1366\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt9.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt9-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt9-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt9-1000x667.jpg 1000w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt9-177x118.jpg 177w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16295\" class=\"wp-caption-text\">Consumidora compra cereais da Nestl\u00e9 em um supermercado em S\u00e3o Paulo.CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>Embora aqueles que advogam em benef\u00edcio da sa\u00fade afirmem que o lit\u00edgio n\u00e3o foi totalmente inesperado, eles foram surpreendidos pela resposta do principal advogado do governo federal, o Advogado-Geral da Uni\u00e3o Lu\u00eds In\u00e1cio Adams, nomeado pelo presidente da Rep\u00fablica. Pouco depois que as regras propostas foram oficialmente publicadas em junho de 2010, Adams uniu-se \u00e0 ind\u00fastria. Algumas semanas depois, um tribunal federal suspendeu as regula\u00e7\u00f5es citando a opini\u00e3o escrita do advogado, que sugeria que a Anvisa n\u00e3o tinha a autoridade para regular as ind\u00fastrias aliment\u00edcia e publicit\u00e1ria. Adams recusou-se a comentar esta mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Raposo de Mello, ex-presidente da Anvisa, revelou que ficou at\u00f4nito diante da mudan\u00e7a de orienta\u00e7\u00e3o de Adams, dado o apoio de longa data do Advogado-Geral \u00e0 Anvisa. Sete anos depois, com a maioria das 11 a\u00e7\u00f5es n\u00e3o solucionada, as regula\u00e7\u00f5es permanecem paradas.<\/p>\n<p>\u201cA ind\u00fastria\u201d, falou de Mello, \u201cdeu a volta no sistema\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto isso, as ind\u00fastrias de alimentos e de bebidas tornaram-se mais agressivas em sua tentativa de neutralizar a Anvisa, considerada seu maior advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em 2010, em meio \u00e0 batalha contra as regula\u00e7\u00f5es propostas pela ag\u00eancia, um grupo de 156 executivos de empresas levou suas queixas \u00e0 campanha de Dilma Rousseff, que concorria \u00e0 Presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Marcello Fragano Baird, cientista politico de S\u00e3o Paulo que estudou o lobby da ind\u00fastria de alimentos contra as regula\u00e7\u00f5es nutricionais, contou que Rousseff garantiu aos executivos que iria intervir na Anvisa. \u201cEla prometeu que \u2018limparia a casa\u2019 quando se elegesse\u201d, assegurou ele, acrescentando que soube do encontro por meio de entrevistas com os participantes.<\/p>\n<p>Rousseff venceu a elei\u00e7\u00e3o e, logo que tomou posse, substituiu Raposo de Mello por Jaime C\u00e9sar de Moura Oliveira, um aliado politico de longa data e ex-advogado da subsidi\u00e1ria brasileira da Unilever.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16296\" aria-describedby=\"caption-attachment-16296\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt10.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16296\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt10.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt10.jpg 800w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt10-300x112.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt10-768x286.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16296\" class=\"wp-caption-text\">Da esquerdo para direita: Dirceu Raposo de Mello, ex-diretor da Anvisa; Jaime C\u00e9sar de Moura Oliveira, seu sucessor; Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil e respons\u00e1vel pela substitui\u00e7\u00e3o de Raposo de Mello; Luis Ignacio Adams, procurador-geral do Brasil.CreditDa esquerdo para direita: Adriano Machado\/Reuters; Ag\u00eancia Brasil; Marcelo Camargo\/Ag\u00eancia Brasil; Apu Gomes\/Agence France-Presse &#8212; Getty Images; Fabio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>O porta-voz de Rousseff n\u00e3o aceitou que ela concedesse uma entrevista a respeito.<\/p>\n<p>Em 2012, a Anvisa abrigou uma exposi\u00e7\u00e3o itinerante de combate \u00e0 obesidade que ocupou outros edif\u00edcios p\u00fablicos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Intitulada \u201cEmagrece, Brasil\u201d, a exibi\u00e7\u00e3o exaltava o exerc\u00edcio f\u00edsico e a modera\u00e7\u00e3o como chaves para combater a obesidade, mas minimizava a evid\u00eancia cient\u00edfica dominante sobre os riscos de consumir muito a\u00e7\u00facar, refrigerantes e alimentos processados.<\/p>\n<p>O patrocinador da exposi\u00e7\u00e3o? A Coca-Cola.<\/p>\n<h2 class=\"story-subheading story-content\" data-para-count=\"49\" data-total-count=\"25821\">Alimentos irresist\u00edveis, crian\u00e7as com sobrepeso<\/h2>\n<p>Mais de 1600 quil\u00f4metros ao sul de Fortaleza, em uma creche pintada com cores vibrantes no centro de S\u00e3o Paulo, a maior cidade do Brasil, os efeitos da mudan\u00e7a nos h\u00e1bitos alimentares s\u00e3o evidentes. A cada dia, mais de cem crian\u00e7as enchem as salas de aula, onde cantam o alfabeto e cochilam em grupo.<\/p>\n<p>Quando foi inaugurada, no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1990, a creche, administrada por uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos, tinha uma miss\u00e3o espec\u00edfica: acabar com a fome de crian\u00e7as de alguns dos bairros mais pobres da cidade.<\/p>\n<p>Hoje, muitas das crian\u00e7as que frequentam a creche est\u00e3o visivelmente rechonchudas e, segundo a equipe de nutricionistas, preocupantemente baixas para a idade, resultado de dietas ricas em sal, gordura e a\u00e7\u00facar, por\u00e9m carentes em alimentos necess\u00e1rios para um desenvolvimento saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os programas de assist\u00eancia a crian\u00e7as incluem crian\u00e7as de 10 anos com pr\u00e9-diabetes e n\u00edveis de gordura alarmantes no f\u00edgado, adolescentes hipertensos e crian\u00e7as de 3 anos t\u00e3o malnutridas que t\u00eam dificuldade para andar.<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e3o chegando beb\u00eas, algo que nunca vimos antes\u201d, revela Giuliano Giovanetti, que faz a divulga\u00e7\u00e3o e a comunica\u00e7\u00e3o para o centro. \u201c\u00c9 uma crise para nossa sociedade porque estamos criando uma gera\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as com comprometimento cognitivo que n\u00e3o atingir\u00e3o todo seu potencial\u201d.<\/p>\n<p>Cerca de 9% das crian\u00e7as brasileiras estavam obesas em 2015, um aumento de mais de 270% desde 1980, de acordo com um estudo recente do Instituto de M\u00e9tricas e Avalia\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade da Universidade de Washington. Isso coloca o pa\u00eds bem pr\u00f3ximo dos Estados Unidos, onde 12,7% das crian\u00e7as tinham obesidade em 2015.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros s\u00e3o ainda mais preocupantes nas comunidades atendidas pelo Centro de Recupera\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Nutricional: em alguns bairros, 30% das crian\u00e7as t\u00eam obesidade e outras 30% sofrem de desnutri\u00e7\u00e3o, segundo os dados da organiza\u00e7\u00e3o, que descobriu que 6% das crian\u00e7as obesas tamb\u00e9m est\u00e3o desnutridas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16297\" aria-describedby=\"caption-attachment-16297\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt11.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16297\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt11.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt11.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt11-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt11-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt11-1000x667.jpg 1000w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt11-177x118.jpg 177w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16297\" class=\"wp-caption-text\">Crian\u00e7as no Centro de Recupera\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Nutricional, depois de comerem um bolo feito com frutas, seguram placas que dizem \u201cEba\u201d.\u00a0CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>As taxas crescentes de obesidade est\u00e3o, em grande parte, associadas \u00e0 melhora na economia, pois fam\u00edlias com melhor padr\u00e3o aquisitivo adotam os alimentos industrializados por sua comodidade, prest\u00edgio e sabor.<\/p>\n<p>Pais ocupados, n\u00e3o para de oferecer aos filhos pequenos macarr\u00e3o instant\u00e2neo e nuggets de frango congelados, refei\u00e7\u00f5es em geral acompanhadas de refrigerantes. Arroz, feij\u00e3o, salada e carne grelhada \u2013 a base da dieta brasileira tradicional \u2013 est\u00e3o sendo colocados de lado, segundo estudos.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 agravado pela viol\u00eancia galopante nas ruas, que mant\u00e9m as crian\u00e7as presas em casa.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito perigoso deixar meus filhos brincarem l\u00e1 fora, ent\u00e3o eles passam todo o tempo livre no sof\u00e1, jogando v\u00eddeo game e vendo TV\u201d, disse Elaine Pereira dos Santos, 35, m\u00e3e de dois filhos de 9 e 4 anos, os dois com sobrepeso.<\/p>\n<p>Isaac, de 9 anos, pesa 62,5 quilos e s\u00f3 consegue vestir roupas feitas para adolescentes. Dos Santos, que trabalha na farm\u00e1cia de um hospital, encurta as cal\u00e7as para o menino.<\/p>\n<p>Como muitas m\u00e3es brasileiras, ela ficou contente quando o filho come\u00e7ou a ganhar peso quando pequeno, n\u00e3o muito tempo depois de ele ter provado a primeira batata frita do McDonald\u2019s. \u201cSempre pensei que beb\u00eas deviam ser gordinhos\u201d, explica. Ela satisfez com alegria os h\u00e1bitos alimentares do filho, que inclu\u00edam idas frequentes a restaurantes de fast food e quase nenhuma fruta ou vegetal.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16298\" aria-describedby=\"caption-attachment-16298\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt12.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16298\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt12.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt12.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt12-300x100.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt12-768x256.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt12-1000x333.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16298\" class=\"wp-caption-text\">Isaac Pereira dos Santos, 9, pesa mais de 60 quilos e s\u00f3 consegue vestir roupas feitas para adolescentes. \u201cQuando vamos fazer compras, at\u00e9 os adultos apontam para ele e ficam encarando\u201d ou lhe chamam de gordinho, conta sua m\u00e3e.CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>No entanto, quando o menino come\u00e7ou a ter dificuldades para correr e a reclamar de dor nos joelhos, dos Santos percebeu que havia algo errado. \u201cA parte mais dif\u00edcil \u00e9 a goza\u00e7\u00e3o das outras crian\u00e7as\u201d, conta. \u201cQuando vamos fazer compras, at\u00e9 os adultos apontam para ele e ficam encarando\u201d ou lhe chamam de gordinho.<\/p>\n<p>Na creche em S\u00e3o Paulo, profissionais da sa\u00fade acompanham o desenvolvimento f\u00edsico e cognitivo das crian\u00e7as, enquanto nutricionistas ensinam os pais a preparar refei\u00e7\u00f5es de baixo custo que incluem arroz, feij\u00e3o e salada. Para algumas crian\u00e7as, a cozinha experimental do centro \u00e9 seu primeiro contato com alimentos como repolhos, ameixas e mangas.<\/p>\n<p>Um dos principais desafios \u00e9 convencer os pais de que seus filhos est\u00e3o doentes. \u201cDiferentemente do c\u00e2ncer ou outras doen\u00e7as, esse problema n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel\u201d, explica Juliana Dellare Calia, 42, nutricionista da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora membros da equipe afirmem que o programa tenha feito avan\u00e7os significativos ao mudar a maneira como as fam\u00edlias se alimentam, muitas crian\u00e7as, no entanto, enfrentar\u00e3o uma batalha contra a obesidade pelo resto da vida. Isso porque pesquisas sugerem que a desnutri\u00e7\u00e3o na inf\u00e2ncia pode levar a altera\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas permanentes que reprogramam o organismo de forma que ele passa a transformar o excesso de calorias em gordura corporal com mais facilidade.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a resposta do corpo ao que ele entende como fome\u201d, explica Dellare Calia.<\/p>\n<h2 class=\"story-subheading story-content\" data-para-count=\"25\" data-total-count=\"30723\">O dinheiro fala mais alto<\/h2>\n<p>Mesmo que os especialistas em nutri\u00e7\u00e3o lamentem a crescente crise de obesidade, bem como os riscos potenciais de longo prazo, um aspecto da revolu\u00e7\u00e3o dos alimentos processados no Brasil \u00e9 ineg\u00e1vel: a expans\u00e3o da ind\u00fastria beneficia pessoas de v\u00e1rios n\u00edveis sociais. A Nestl\u00e9, que afirma empregar 21 mil pessoas no pa\u00eds, come\u00e7ou h\u00e1 dois anos um programa de est\u00e1gio que ofereceu treinamento para 7 mil pessoas com menos de 30 anos.<\/p>\n<p>Perto da base da cadeia alimentar encontra-se da Silva, a vendedora de Fortaleza, que se sente otimista quanto ao futuro, apesar de seus crescentes problemas de sa\u00fade. A vida tem sido uma luta desde que deixou a escola aos 14 anos, quando engravidou da primeira filha. Agora ela quer arrumar o dente cuja falta lhe estraga o sorriso hesitante e comprar uma casa mais apropriada, uma que n\u00e3o tenha goteiras quando chove forte.<\/p>\n<p>Ela agradece \u00e0 Nestl\u00e9.<\/p>\n<p>\u201cPela primeira vez na vida, tenho esperan\u00e7a e me sinto independente\u201d, diz.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16299\" aria-describedby=\"caption-attachment-16299\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt13.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16299\" src=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt13.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt13.jpg 2048w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt13-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt13-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt13-1000x667.jpg 1000w, https:\/\/www.tiabeth.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/nyt13-177x118.jpg 177w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16299\" class=\"wp-caption-text\">Produtos Nestl\u00e9 \u00e0 espera da vendedora para entreg\u00e1-los em casas de Fortaleza.CreditWilliam Daniels for The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>Est\u00e1 ciente da rela\u00e7\u00e3o entre a dieta e seus problemas de sa\u00fade persistentes, mas insiste em que os filhos est\u00e3o bem nutridos, enquanto aponta para os produtos da Nestl\u00e9 em sua sala de estar. Ser uma vendedora da Nestl\u00e9 tem outra vantagem: os biscoitos, chocolates e sobremesas que muitas vezes sustentam sua fam\u00edlia s\u00e3o comprados por atacado.<\/p>\n<p>Com uma lista crescente de clientes, Da Silva concentra-se em outro objetivo que visa a aumentar ainda mais o neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u201cQuero comprar uma geladeira maior\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por\u00a0<a title=\"More Articles by ANDREW JACOBS\" href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/by\/andrew-jacobs\"><span class=\"byline-author\" data-byline-name=\"ANDREW JACOBS\" data-twitter-handle=\"AndrewJacobsNYT\">ANDREW JACOBS<\/span><\/a>\u00a0e\u00a0<span class=\"byline\"><a title=\"More Articles by MATT RICHTEL\" href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/by\/matt-richtel\"><span class=\"byline-author\" data-byline-name=\"MATT RICHTEL\" data-twitter-handle=\"mrichtel\">MATT RICHTEL<\/span><\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*. Paula Moura contribuiu com sua pesquisa em Fortaleza e S\u00e3o Paulo, Brasil.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2017\/09\/16\/health\/brasil-junk-food.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.nytimes.com\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FORTALEZA, Brasil \u2014 Gritos de crian\u00e7as soavam na manh\u00e3 quente e \u00famida, enquanto uma mulher empurrava um carrinho branco e reluzente pelas ruas esburacadas e repletas de lixo espalhado. Ela fazia entregas em algumas das casas mais pobres desta cidade litor\u00e2nea, levando sobremesas l\u00e1cteas, biscoitos e outros alimentos industrializados aos clientes situados em seu trajeto. 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