Quando comecei a jornada de amamentação tendo o tipo 1 da diabetes, tive o prazer de descobrir que a minha produção de leite veio com facilidade, e muitas vezes fazia referência a mim mesma como sendo uma “fábrica de leite”. Fiquei aliviada ao ver que eu não iria precisar de protetores ou lubrificantes de mamilo para evitar rachaduras ou sangramentos doloridos. Nem me preocupei com isto por semanas, visto que minha pequena Lucy descobriu como mamar corretamente. Depois de ter feito algum esforço com sua pequena língua, à partir do segundo dia de vida, a sua amamentação ocorreu tranquilamente, isto é, com exceção de seu impacto sobre os meus níveis de açúcar no sangue.
Depois que eu passei os 9 meses da gestação com o objetivo de quase-perfeição, nos primeiros meses após o parto meu açúcar no sangue oscilou entre 40 e 200 mg / dL, uma ou duas vezes por dia. Fiquei desapontada com isso, mas talvez eu tenha sido muito rigorosa comigo mesma, pois meu açúcar no sangue não estava tão selvagem como eu achei que estava. Os níveis apenas pareciam “terríveis” em comparação aos meus rígidos controles de açúcar no sangue durante a gravidez. No entanto, uma vez que os níveis baixos não se correlacionavam necessariamente com a amamentação, comecei a achar que se tratava apenas de uma falha em minha gestão de açúcar.
Deixando de amamentar 3 meses após Lucy nascer, eu pude ver o quão enorme é o impacto de uma amamentação (mais especificamente, a produção de leite) tinha na gestão do meu açúcar no sangue e o quanto mais estável o meu açúcar no sangue ficava quando parei de amamentar.
A realidade é que cada mulher é diferente, e por causa disso a diabetes de cada mulher vai ser diferente. É natural supor, então, que a experiência da amamentação de cada mulher também vai ser diferente. Mas existem alguns fatos básicos que todas as mulheres com diabetes e que querem amamentar precisam saber. Conversei com Jennifer Smith, mãe, ela mesma com diabetes, e que trabalha com mulheres em todo o mundo através do Skype à partir do IntegratedDiabetes, para ajuda-las a entender melhor a verdade sobre amamentação com diabetes tipo 1.
Eis algumas grandes dúvidas:
1. A produção de leite depende fortemente da produção de insulina. Mulheres com diabetes tipo 1, muitas vezes têm dificuldade em produzir leite suficiente.
FALSO
“A menos que seu açúcar no sangue esteja bem acima de 200 mg / dL durante dias a fio, não há razão para uma mulher com diabetes tipo 1 ter mais dificuldade em produzir leite materno do que uma mulher não diabética”. Smith explica, “diabética ou não, certamente há mulheres cujos corpos se esforçam bastante para produzir leite suficiente, que por razões desconhecidas que estão completamente fora de seu controle. Mas uma mulher com os níveis de açúcar no sangue razoavelmente bem geridos, o diabetes não deve ser o problema”.
2. Se o açúcar no sangue está mais alto antes da amamentação, você vai ter que bombear e jogar fora o leite porque demasiado açúcar em seu leite materno vai ser ruim para o seu bebé
FALSO
“Embora não seja muito bom ter consistentemente o nível de açúcar no sangue elevado durante a amamentação, o leite materno, à princípio, já contém uma grande quantidade de açúcar, porém muito pouco do açúcar proveniente da corrente sanguínea da mãe”, explica Smith. “O principal açúcar do leite da mãe é a lactose, que é composta de dois açúcares básicos: glicose e galactose. A glicose é o açúcar que está em excesso na corrente sanguínea de pessoas com diabetes. Embora parte do excesso de glicose na corrente sanguínea de uma mãe com consistentemente altos níveis de açúcar no sangue possa ir para o leite materno, a maior parte dele é usada na produção de lactose”.
“Para o açúcar ocasionalmente elevado no sangue em uma nova mãe que tem os níveis de açúcar no sangue, de outra forma, bem geridos, a quantidade real de glicose no leite materno é mínima e insignificante. Dizer a uma mãe com diabetes tipo 1 “bombear e jogar fora” é extremamente míope e uma pressão ainda maior sobre ela. Os benefícios do leite materno para o seu bebé certamente superam a quantidade pouco significativa de glicose extra no leite materno”.
3. A amamentação vai certamente fazer da gestão de açúcar no sangue um pesadelo. Eu sempre vou ter hipoglicemias.
FALSO
“Durante os três primeiros meses de amamentação, suas taxas basais terão de ser gradualmente reduzidas e ajustadas conforme a sua produção de leite atingir o pico e, eventualmente, regularizar”, explica Smith. “Sessões de amamentação poderiam ser a cada 2 a 3 horas durante o primeiro mês, e seu bebê pode mamar durante 10 minutos em uma alimentação e por 20 minutos na próxima. Isso pode tornar um pouco difícil de prever o quanto de glicose você precisará consumir para evitar uma baixa de açúcar no sangue”.
“Mas você também pode achar que não precisa consumir a glicose extra para cada sessão de amamentação. Provavelmente haverá momentos do dia em que você não vai precisar de glicose extra e terá outras ocasiões, por exemplo, durante a amamentação da manhã, que você poderá precisar da glicose extra. Amamentações pela manhã podem não precisar e amamentações durante a noite podem exigir glicose adicional novamente. Você poderá achar que pode simplesmente reduzir a dose de insulina, algo em torno de 0,5 a 2 unidades em qualquer refeição que você consumir após uma sessão de amamentação. No final, a amamentação não é um coisa simples nem necessariamente previsível. Todos os nossos corpos são diferentes, então a nossa resposta à amamentação será um pouco diferente, também”.
Como todas as coisas na vida com diabetes, seu diabetes pode variar. Fazer pequenos ajustes às suas doses de insulina ou comer 10 a 20 gramas de carboidratos após cada mamada pode manter o açúcar no sangue estável. Ou para você, o estresse de ser uma nova mãe combinado com ter uma doença crônica que necessita de manutenção constante pode não ser suficiente para dizer: “Ok, eu dei ao meu filho algumas semanas de leite materno, que é um presente maravilhoso e vai beneficiar a sua saúde, e agora, por causa das minhas próprias necessidades, é hora de começar a usar a fórmula”.
A decisão é sua, e somente sua, e deve sempre ser feita em consulta com o seu médico.
Ginger Vieira

