sexta-feira, outubro 23, 2026
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Seriam as pessoas com Diabetes mais propensas à violência?

A maioria das pessoas com diabetes insulino-dependente experimentaram alguma vez na vida a perda do controle e da razão. Algumas unidades de insulina a mais – uma overdose acidental – pode desencadear um episódio de hipoglicemia.

Essas experiências variam de pessoa para pessoa. No caso de Mike Hoskins, que vive com diabetes tipo 1, ele costuma ficar muito mal. Quando passa por episódios de hipoglicemia, ele passa a observar uma invasão de alienígenas e teorias conspiratórias passam através de sua mente. Sua mulher acorda no meio da noite em risco de violência física porque uma vez que seus níveis se afundam para abaixo de 40, Mike às vezes morde, bate e arranha. Porém quando ele se torna violento, eles têm um plano de ação:

– “Minha esposa é menor do que eu. Portanto, temos uma regra permanente para quando eu não ficar tão cooperativo ou até mesmo violento: ela chama os paramédicos”.

Felizmente, isso não acontece já faz anos porque Mike passou a usar um monitor contínuo de glicose para alertá-lo de baixas perigosas.

Alucinações e violência agressiva não fazem parte da reação de todos quando perigosamente houver uma baixa de açúcar no sangue. Eu, por exemplo, costumo ficar mudo e imóvel, paralisado pela confusão mental momentânea. Qualquer um que tenha experimentado a hipoglicemia severa conhece os poderosos efeitos deste fenômeno.

Mas seria a hipoglicemia severa a única causa do comportamento agressivo relacionado ao diabetes? Vários estudos científicos recentes têm examinado o comportamento agressivo e propões mais facetas para a relação entre o açúcar no sangue, o esforço de auto-controle e a agressão. Algumas pesquisas sugerem que até mesmo devido a problemas de metabolização da glicose, as pessoas com diabetes são mais propensas a comportamentos agressivos e crimes violentos, incluindo assassinato, estupro e roubo.

Auto-controle: um recurso finito

O mais recente estudo da relação entre o açúcar no sangue e agressividade publicado no início deste ano, “Baixa de glicose relaciona-se com maior agressividade em casais” recebeu uma enxurrada de atenção da mídia, em parte porque os autores do estudo incluíram a palavra da moda “hangry” (estado de raiva devido à falta de alimento, em inglês) em suas descobertas. A equipe de pesquisadores escreveu nos Anais da Academia Nacional de Ciências que os indivíduos, com ou sem diabetes, são mais propensos a um comportamento agressivo quando seus níveis de açúcar no sangue são mais baixos do que o habitual.

O estudo, que eu vou chamar de “Baixa de glicose relaciona-se com a agressão“, cita diversos outros estudos para justificar a conclusão de haver uma ligação entre os níveis de açúcar no sangue e o comportamento agressivo. Estudos anteriores demonstraram que o esforço de autocontrole requer energia a partir da glicose e que a reserva de cada pessoa da energia necessária é limitada no curto prazo.

O estudo, “Auto-controle requer bastante alimento para o cérebro na forma de glicose” afirma que uma vez que você usa o auto-controle para modificar o seu comportamento, você será menos capaz de usar o auto-controle até que sua reserva de energia – o seu “alimento para o cérebro” – seja reabastecido.

Os pesquisadores concluíram que “o metabolismo saudável da glicose pode contribuir para tornar as residências mais pacíficas, fornecendo aos casais um impulso energético para o seu auto-controle”. Finalmente, eles sugerem que a violência do parceiro íntimo pode ser reduzida através do metabolismo saudável da glicose.

Diabetes, auto-controle, agressão e crime violento

Os pesquisadores apontam que o estudo não leva em conta os efeitos de doenças que interferem com o metabolismo da glicose, tais como diabetes, e sugere que um trabalho futuro pode considerar a possibilidade de que o diabetes pode contribuir para a violência do parceiro íntimo.

Em apoio a esta hipótese, os pesquisadores fizeram referência a um estudo publicado em 2011 na revista Aggressive Behavior, “Sangue com açúcar esfria ânimos quentes: auto-controle fisiológico e agressão” que observa uma propensão para a criminalidade violenta entre as pessoas com diabetes. Esta conclusão foi baseada na correlação positiva que existe em estados norte-americanos entre os crimes violentos e diabetes. A correlação era verdade mesmo quando segmentado por renda, o que significa que o fenômeno não pode ser atribuído exclusivamente ao status socioeconômico.

É importante notar que o estudo acima não apresenta evidências diretas de que a diabetes de qualquer forma é a causa do crime violento. Isso só mostra que os estados norte-americanos com altos índices de diabetes também têm altas taxas de crime violento e que a pobreza não é a causa direta. Também não mencionou ou considerou a possibilidade de que outras condições relativamente comuns entre as pessoas com diabetes, tais como a depressão, podem estar relacionadas com a correlação positiva entre as taxas de diabetes e crimes violentos.

Ainda como parte deste estudo, os pesquisadores também mostram uma relação entre o estado diabético (definido no estudo da gravidade dos sintomas) e comportamento agressivo. Em um ambiente de laboratório, as pessoas com sintomas diabéticos mais graves tendem a apresentar um comportamento mais agressivo. Os pesquisadores atribuem esse achado à diminuição do auto-controle, com base na premissa de que “a glicose é alimento para o cérebro para o auto-controle” e que o diabetes interfere com o metabolismo da glicose.

Transportadores de glicose do cérebro e Diabetes

Na verdade, haverá ocasiões em que as pessoas com diabetes podem não controlar o seu comportamento devido à baixa de açúcar no sangue e, consequentemente, ficarem propensos a agressão. Hipoglicemia induzida por insulina, como descrito acima no cenário de Mike, ocorre quando uma pessoa injeta muita insulina, o que causa um queda do açúcar no sangue a níveis perigosamente baixos. Nesta situação, não há glicose disponível e o cérebro, necessitando da presença de glicose, entra numa espécie de crise.

No entanto, os autores do estudo não atribuem suas descobertas à hipoglicemia induzida por insulina, nem era essa a condição de um fator que contribuiu para os experimentos de laboratório. Em vez disso, eles afirmam que o metabolismo da glicose em pacientes com diabetes faz com que a glicose seja suficiente para estar disponível para o cérebro. Vou argumentar que essa afirmação é falha e prejudica a validade de suas conclusões.

Os pesquisadores afirmam o seguinte no resumo do estudo:

“… Problemas com o controle da glicose (por exemplo, hipoglicemia, diabetes) têm sido associados a numerosos sinais de baixo auto-controle, incluindo comer comidas gordurosas e substâncias açucaradas durante um longo período de tempo … O autocontrole também é prejudicado por níveis inadequados de glicogênio do cérebro … um metabólito que fornece energia para o esforço sustentado. Assim, a baixa de glicose e problemas de metabolização da glicose em glicogênio reduz o auto-controle [grifo meu]”.

Na verdade, independentemente de um baixo auto-controle contribuir para o consumo de uma dieta pouco saudável, diabetes não priva o cérebro de glicose. Ao contrário, a maioria dos diabéticos estão cheios de sangue glicosado, e o cérebro tem acesso a esta glicose.

Isto porque, enquanto o diabetes leva a problemas de metabolização da glicose, apenas alguns transportadores de glicose no corpo são afetados. Por exemplo, enquanto a insulina (o que todos diabéticos do tipo 1 e alguns do tipo 2 não têm) é necessária para trazer glicose ao músculo, fígado e células de gordura, transportadores de glicose no cérebro não dependem de insulina e, portanto,não sendo influenciados nem pela ausência total de secreção de insulina (entre diabéticos tipo 1), nem pelo seu mau funcionamento (entre diabéticos tipo 2).

Por este motivo, para um indivíduo com diabetes que tem o nível de açúcar no sangue cronicamente elevado, a privação de glicose para o cérebro é improvável – menos provável, de fato, do que para a população em geral – exceto no caso de uma superdosagem de medicamentos, com a insulina conduzindo à hipoglicemia induzida descrito acima.

Em sua discussão sobre a estudo, os pesquisadores escreveram o seguinte:

“Como esperado, o estado diabético foi positivamente correlacionado com a agressividade … [g] licose é alimento para o cérebro realizar o auto-controle, e as pessoas que têm dificuldade em metabolizar a glicose também têm dificuldades em controlar os seus impulsos agressivos”.

Este raciocínio não se alinha com o processo pelo qual o cérebro obtém glicose, tal como descrito acima. Dado que os transportadores de glicose cerebral não são dependentes de insulina, não deve haver problemas de transportar glicose suficiente da corrente sanguínea para o cérebro.

Violência Hipoglicêmica

A violência induzida por hipoglicemia e um ou outro comportamento errático é uma preocupação real entre as pessoas com diabetes e as demais pessoas em suas vidas. É importante estar ciente do nível de glicose em todos os momentos para essas situações de emergência e um plano definido para quando chamar uma ambulância conforme fizeram Mike Hoskins e sua esposa.

Se neste aspecto de viver com diabetes, na qual uma hipoglicemia induzida por insulina poder  tornar uma pessoa mais propensa a cometer crimes violentos, seria importante identificar esse fenômeno e desenvolver estratégias para gerenciá-lo. Mas ao contrário das sugestões de artigos recentes da mídia e literatura científica revisada por pares, evidências de que o metabolismo da glicose comprometido leva a crimes violentos entre os diabéticos não existe no momento.

Leo Brown é um escritor e fundador do newfoodculture.com, um blog que gera idéias e estratégias que levam a, vida sustentável saudável. Depois de se formar no Williams College, ele ensinava Inglês em uma universidade em Novosibirsk, Rússia, através do programa Fulbright. Leo vive em Jamaica Plain, Massachusetts. Leo é ainda um violinista e corredor, e seus tweets são @ newfoodculture e @ leoebrown.

http://asweetlife.org/

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