
Mesmo tendo sido descoberta há mais de 90 anos atrás, a insulina ainda está fora do alcance de um chocante número de 29 milhões de pacientes com diabetes nos Estados Unidos. Sim, estamos em pleno século 21, mas ainda assim um número impressionante de seres humanos são forçados a viver em condições de risco de vida. Mas por que a insulina ainda é proibitivamente cara para tantas pessoas? De acordo com Jeremy Greene, MD, Ph.D., e Kevin Riggs, MD, MPH, é tudo por causa de uma série de atualizações perversas para as formulações da insulina. Enquanto que a insulina produzida hoje é mais eficaz em alguns casos, as versões anteriores não eram assim tão ruins. Na verdade, elas salvaram vidas. No entanto, foram substituídas por versões muito mais caras, enquanto as versões mais antigas, muito mais baratas, estão longe de ser encontradas no mercado. Os dois autores exploram tudo o que há de errado com insulina das grande empresas farmacêuticas de hoje.
Uma breve história da insulina
No estudo publicado no New England Journal of Medicine, os dois autores descrevem a história da fabricação da insulina até os dias de hoje para construir o contexto que descreve o atual estado das coisas no grande negócio farmacêutico. O diabetes é diagnosticado quando uma pessoa tem excesso de glicose (açúcar) no sangue. Isso acontece porque o pâncreas não consegue produzir insulina suficiente. A insulina é produzida no pâncreas e tem duas funções no corpo – a primeira é o transporte de glicose à partir do sangue para células de gordura e músculo, onde pode ser usada para produzir energia. A segunda é para desligar o fígado uma vez que o nível de glicose no sangue está elevado o suficiente.
Em 1910, Sharpey-Shafer de Edimburgo sugeriu que um único produto químico estava faltando no pâncreas em pessoas diabéticas. Ele propôs chamar este produto químico de “insulina”. O nome pegou e mais tarde foi retomado por Frederick Banting e Charles Best, dois pesquisadores canadenses tidos como descobridores do hormônio em 1921. Eles mostraram que a remoção do pâncreas em cães os deixavam diabéticos. Em seguida, eles isolaram um fluido (a insulina em questão) das ilhotas de Langerhans-grupos de células especializadas do pâncreas e injetaram nesses cães diabéticos. Estas células restauraram os cães à normalidade – enquanto eles tinham o extrato. Por seu trabalho, os dois foram agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina no ano seguinte, em 1923. Talvez valha a pena mencionar que muitos creditam a RC Paulescu, biólogo romeno, como sendo o primeiro a descobrir insulina.
De qualquer forma, a Universidade de Toronto foi boa o suficiente para dar imediatamente às empresas farmacêuticas, licença para produzir insulina livre de royalties. Em pouco tempo, tornou-se amplamente disponível em todos os lugares para salvar milhões de vidas em todo o mundo. Em 1955, a insulina se tornou a primeira proteína a ser completamente sequenciada. Isto foi muito importante uma vez que quando uma sequência de proteína é conhecida, é possível, em teoria, recriá-la sinteticamente. De fato, a insulina foi a primeira proteína a ser sintetizada quimicamente em laboratório, em 1963, mas na época não foi bem sucedida já que os cientistas não foram capazes de muita produção.
Há 60 anos, desde que o grupo de Banting isolou a primeira insulina, pessoas com diabetes vêm utilizando o hormônio purificado à partir de animais, principalmente bovinos e suínos. Nesse meio tempo, a droga começou a ser feita de modo mais pura, e menos reações adversas ocorreram. Foi feita também para durar mais tempo na corrente sanguínea, por isso foram necessárias menos injeções. Outra descoberta veio em 1978 quando a insulina se tornou a primeira proteína humana a ser fabricada por meio da biotecnologia. Uma equipe de pesquisadores do City of Hope National Medical Center e da empresa de biotecnologia Genentech conseguiram sintetizar a insulina humana em laboratório, utilizando um processo que pode produzir grandes quantidades. Basicamente, eles inseriram DNA humano em bactérias e as utilizaram como fábricas em miniatura. O resultado foi a insulina humana, sem os problemas que a insulina animal, por vezes, provocava. Humulin, como o produto comercial foi chamado, revolucionou o tratamento do diabetes, quando se tornou amplamente disponível no início de 1980.
Nossas drogas, as nossas regras
Hoje, quase todas as pessoas diabéticas utilizam a insulina humana recombinante em vez de insulina animal. Então, uma coisa engraçada aconteceu, Greene diz: “A insulina [animal] mais velha, ao invés de permanecer no mercado como uma alternativa mais barata, desapareceu”.
De acordo com o Dr. Kevin Riggs, um professor de medicina na Universidade Johns Hopkins e co-autor do novo estudo de insulina, Humulin lançou uma campanha de marketing altamente agressiva direcionada aos médicos para assumir o novo produto. Abandonada e sem demanda, a variedade de animais iria enfraquecer. Dr. Adriane Fugh-Berman, professor de medicina e farmacologia na Universidade de Georgetown, diz que esta é permitida porque o FDA não exige que as novas drogas no mercado sejam melhores do que drogas mais antigas – exige apenas que as novas drogas não sejam piores. “Em estudos financiados pelo governo que compararam drogas mais antigas com as novas drogas, muitas vezes os medicamentos mais antigos se saíram melhor ou igual às drogas mais novas”, diz Fugh-Berman.
Um tratamento com a nova versão do Humulin pode custar até US $ 400 por mês, e muitos dos milhões de pacientes com diabetes nos EUA não podem pagar. Sem alternativas, deixam de seguir, por completo, o tratamento. De acordo com um relatório da Ação Internacional da Saúde de 2010, o preço da insulina pode variar muito de acordo com o lugar onde você vive: preços de insulina para 10 ml pode custar de 1,55 dólares por um frasco no Irã até 76,69 dólares, na Áustria.
“Quando as pessoas não podem pagar, muitas vezes tem que parar por completo.”
Riggs diz que seus pacientes com diabetes que não estão tomando as insulinas prescritas queixam-se de visão turva, perda de peso e sede intolerável – sintomas de diabetes descontrolada, que podem levar à cegueira, insuficiência renal, gangrena e perda de membros.
A insulina biotecnológica é agora padrão nos EUA, dizem os autores. Esse status perverso foi mantido por empresas como a Sanofi ou Novo Nordisk graças às melhorias incrementais que estendem suas patentes por muitas décadas. Riggs e Greene, destacam que as patentes sobre a primeira insulina sintética expirou em 2014.
