segunda-feira, outubro 26, 2026
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Diagnósticos e tratamentos excessivos


“Milhões de norte-americanos fazem exames, medicações e operações que em nada melhoram suas vidas, podem lhe causar danos e custam bilhões de dólares.” Essa frase, em tradução livre, inicia a crônica do Dr. Atul Gawande, na prestigiosa revista The New Yorker de maio deste ano.

De origem indiana, Gawande, cirurgião da Harvard, é escritor do mundo. Um grande articulista, conta histórias reais, criticando o sistema de saúde dos EUA.

No artigo, denuncia a quantidade alarmante de exames, que resultam num exagerado número de diagnósticos pouco relevantes e, assim, em tratamentos desnecessários, na mais cara medicina do mundo. Esses “achismos” resultam em alguns “tratamenticídios”: morrem 15 pacientes por hora nos EUA devido a erros, em parte induzidos por exames e tratamentos desnecessários!

Os vilões desse caos são: ressonância nuclear magnética, tomografia computadorizada, cateterismo cardíaco e análises sanguíneas. Tudo em parte fruto de uma medicina defensiva, submetida a frequentes processos judiciais. Médicos temem mais advogados que doenças.

Detectar uma anormalidade não obriga a tratá-la. Lesão de evolução benigna ou sem eficácia de cura deve ser apenas observada. Se há modificação do quadro clínico, nova conduta poderá ser adotada, sem prejuízo ao paciente. Porém, a medicina individual foi substituída pela do paciente com código de barras. Receitas médicas são “polifarmácias”. Se houver lesão de coronária, a maioria dos pacientes vai receber o “kit coração”: estatina, para combater a gordura; anticoagulante, para evitar a coagulação excessiva; e remédio para o ritmo cardíaco. Esses fármacos podem estar corretos, mas fica a pergunta: esses pacientes precisam ser medicados?

As condutas médicas baseiam-se em consensos, reuniões realizadas periodicamente entre renomados especialistas, que, após revisarem estudos científicos, definem os exames e tratamentos com os quais a maioria dos pacientes terá benefício ou não. Entre os extremos, há uma área cinzenta: “Talvez? Quem sabe?”

No final do contundente artigo, Gawande denuncia o descaso aos maiores problemas do povo: diabetes, hipertensão e outras doenças que não dependem de sofisticada tecnologia para diagnóstico e tratamento.

E no Brasil?

São duas notícias, uma boa e outra ruim, para nossos dois sistemas: o SUS, o mais democrático do mundo, e o da saúde suplementar.

A “boa” notícia para o SUS: como faltam exames e tratamentos, estamos livres dos problemas citados. A ruim: precisamos desses exames e tratamentos bem indicados.

Para quem utiliza a saúde suplementar, notícias ruins: somos iguais aos americanos, e o governo permitirá aumento da mensalidade dos planos de saúde acima da inflação. Isto só é bom para os investidores americanos, chineses e canadenses, que chegam beneficiados pela mudança da legislação e ávidos por bons negócios.

Deixo um alerta: que nossos governantes leiam alguém que conhece esse negócio, como Atul Gawande.

 

Alfredo Guarischi, médico, cirurgião geral e oncológico, especialista em Fator Humano, Organizador do SAFETYMED e do GERHUS alfredoguarischi@yahoo.com.

 

http://noblat.oglobo.globo.com/

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