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Diabetes e o longo tempo da inovação

Da universidade ao mercado, o caminho para que o desenvolvimento científico seja convertido em produtos para a população pode ser mais longo do que se imagina.

Quem está envolvido de alguma forma com a área científica – como eu – já deve estar acostumado com a grande diferença entre o timing da ciência e aquele que rege a nossa vida cotidiana atualmente. Mas acabo de perceber que a falta de agilidade em transformar o que se pesquisa nas nossas universidades em produtos acessíveis à população ainda é capaz de me surpreender – especialmente em um momento em que o termo ‘inovação’ tornou-se palavra de ordem.

Em dezembro de 2006, publicamos uma matéria sobre um remédio fitoterápico em forma de gel ou pomada desenvolvido na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, capaz de induzir a cicatrização rápida de feridas em diabéticos. Naquela época, o produto já havia passado por testes em animais e humanos e seu registro de patente estava sendo solicitado ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Essa matéria fez – e faz – grande sucesso entre os leitores: até hoje recebemos e-mails pedindo mais informações sobre o remédio, principalmente onde encontrá-lo. Também não é para menos: em testes com pacientes diabéticos, o medicamento curou em 20 ou 30 dias feridas que já tinham sido tratadas com outras drogas sem sucesso e se estendiam por três ou quatro anos. Para quem tem diabetes, essa pode ser a diferença entre ter ou não um membro amputado.

Quase sete anos depois, o produto ainda está em fase de registro de patente no INPI

Diante do interesse do nosso público, decidimos resgatar essa história, para saber o que tinha acontecido com esse remédio tão promissor. Mas, para minha surpresa – e decepção – fui informada de que, quase sete anos depois, o produto ainda está em fase de registro de patente no INPI!

“É um processo demorado mesmo, porque eles precisam analisar com cuidado todos os documentos e verificar se não há ninguém no Brasil ou no exterior com um produto igual”, conforma-se a especialista em farmacologia e bioquímica Tania Toledo de Oliveira, coordenadora do Laboratório de Biofármacos da UFV, onde o medicamento foi desenvolvido. Segundo ela, mais um documento foi solicitado à universidade recentemente. “Recebemos um comunicado de que o produto está em fase final de registro de patente. Acredito que o processo leve mais um ou dois anos.”

A chefe da divisão de patentes de plantas e alimentos do INPI, Rosana Bernardo da Silva, conta que a última exigência do processo desse fármaco acaba de ser cumprida e ele agora está aguardando o exame de mérito, que vai ou não conceder a patente. “Esse exame leva em média oito meses”, diz. Só que não existe previsão de quando a análise será iniciada, porque há outros pedidos na fila.

Segundo informações do INPI, atualmente o processo de registro de patente dura em média oito anos. Mas a entidade tem a meta de reduzir esse tempo para cerca de quatro anos até 2015. Para isso, pretende investir na contratação de profissionais, na revisão de procedimentos e em informatização, com o lançamento de uma plataforma on-line de pedidos de patentes. No caso específico dos medicamentos, o INPI lançou recentemente um projeto para priorizar a análise desses produtos, o que deverá ser feito entre nove e 12 meses a partir do momento em que a priorização for declarada.

Da bancada para a prateleira

Tania Oliveira explica que não é possível fabricar o novo fármaco no laboratório da UFV, pois essa atividade competiria a farmácias de manipulação ou empresas farmacêuticas. “Embora este seja um produto importantíssimo e que tem uma ação fantástica, ele só vai atingir o mercado consumidor após o registro da patente e a transferência da tecnologia para a indústria”, esclarece.

Remédio cicatrizante

De acordo com a pesquisadora, a universidade já está em contato com algumas empresas para negociar a produção do medicamento. Mas, antes da fabricação do remédio, ainda será preciso fazer o seu registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Como o produto já passou por testes farmacológicos e toxicológicos em animais e humanos, o processo não deve demorar muito; acredito que leve em torno de um ano”, avalia. Pelo visto, os diabéticos ainda terão que esperar mais um tempinho para ter acesso ao novo remédio.

Antes da fabricação do remédio, ainda será preciso fazer o seu registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária

Enquanto a patente não vem, os pesquisadores do Laboratório de Biofármacos da UFV continuam a pesquisar novos fármacos a partir de plantas brasileiras. Uma das quatro espécies usadas no remédio cicatrizante também está sendo testada em formulações para tratar inflamações internas, diabetes e até câncer.

Testes em animais têm mostrado a eficácia desses fármacos em controlar os altos níveis de glicose e hemoglobina glicosilada no sangue de diabéticos e em reduzir inflamações internas, como úlceras gástricas. “As patentes desses produtos também já foram solicitadas ao INPI”, conta Oliveira.

Em estudos com câncer de fígado e de pulmão e melanoma, os pesquisadores conseguiram inibir o crescimento e a divisão celular nos tumores, estimular o sistema imunológico dos animais e provocar a morte de milhões de células tumorais, além de impedir sua migração para outros órgãos, fato que está associado à metástase da doença. “Devemos fazer o pedido de patente desse fármaco até o fim deste ano”, diz.

Quando esses remédios estarão no mercado? Bem, isso dependerá do timing da ciência e da inovação…

Thaís Fernandes
Ciência Hoje On-line

 

http://cienciahoje.uol.com.br/

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