
Já faz quinze anos que jogo futebol sempre às segundas feiras pela noite. Nesta semana um “companheiro de pelada” que já não comparecia há algum tempo, apareceu e perguntou-me se minha esposa estava bem. Estranhei a pergunta, pois não sabia que ele conhecia TiaBeth, quando falou: “Não lembra que encontrei vocês no Alemão“?! Imediatamente recordei-me da situação daquele encontro que agora conto a vocês.
Durante os dias de jogos da Copa do Mundo no Rio de Janeiro, a prefeitura decretava ponto facultativo. Uma das partidas cairia na quinta feira, em véspera de um feriado, o que deixaria o fim de semana bem prolongado. Então ainda pela quarta feira, eu e TiaBeth resolvemos nos antecipar e pegar a estrada rumo a Nova Friburgo por volta da hora do almoço. Porém logo ao sairmos de casa nos depararmos com intenso trânsito, pois milhares de pessoas tiveram a mesma ideia de deixar o Rio nesta hora. Mesmo os atalhos que conhecia estavam engarrafados, o que transformou o início de nossa viagem em uma fuga agonizante.
Apesar do curto percurso, necessariamente teríamos que almoçar pelo caminho, pois já estava ficando tarde e nada tínhamos comido até então. E após quase duas horas no trânsito, resolvemos parar na Casa do Alemão, restaurante na beira da estrada muito conhecido e frequentado pelos cariocas, ainda bem próximo à cidade.
Ao chegarmos, o estacionamento estava lotado e depois de esperar por uma vaga, parei e saltei ansioso para matar a fome. Já TiaBeth não saiu do carro. Retornei e percebi ela ainda sentada no banco meio desorientada, em pleno episódio de hipoglicemia, muito provavelmente por nada ter ingerido pelo tempo que passamos no trânsito.
Mas o caso não era grave. Tirei-a do carro com cuidado e a conduzi até o restaurante. Havia muita gente, e mesmo assim consegui uma pequena mesa na qual acomodei TiaBeth e pedi uma coca-cola para fazê-la retornar aos níveis normais de glicose. E após tudo normalizado, fizemos nossas deliciosas refeições em meio ao grande movimento. Ao final, ela levanta e diz:
– Eu vou até o toilette lavar as mãos e tomar insulina. 😮
– Tá bom. Eu vou para o carro ficar te esperando. 😮
Dentro do carro, fiquei aguardando TiaBeth que estava levando mais tempo do que o habitual. Fui ficando estressado com a demora e depois de mais de 20 minutos esperando, já com uma fila de carros aguardando meu lugar, ligo o automóvel e saio da vaga em sua procura pelo enorme estacionamento. Eu a avisto de longe, porém devido à confusão dos veículos em buscas das vagas, eu não conseguia chegar até onde ela estava.

Tive então a “brilhante” ideia de buzinar para chamar sua atenção, mas por estar longe, ela não me percebia e os motoristas próximos ficavam muito aborrecidos comigo. Então, numa atitude extrema, abandonei o carro ligado no meio do pátio e saí correndo em direção de TiaBeth, gritando-lhe pelo nome feito um louco varrido.
Felizmente TiaBeth ouviu, atendeu ao chamado e retornou comigo ao automóvel que estava atravancando tudo no local. Já na estrada, ela disse-me que depois de sair do banheiro ficou a minha procura pelo pátio, pois não sabia onde eu havia estacionado. Daí lembrei-me que ao chegar ao Alemão, ela estava meio hipoglicêmica e não se lembraria onde eu havia deixado o carro, justo o que ocorreu. De repente tudo se justificou, mas o estresse já estava instalado e aquele estado de ânimo perdurou por mais alguns quilômetros da viagem. 🙁
– Hoje aquele meu amigo que te conheceu lá no Alemão perguntou por você. 😮
– Amigo?? que amigo? 🙄
Ney Limonge é psicanalista, engenheiro elétrico e casado com Raquel Limonge, diabética do tipo 1 e protagonista das suas histórias. Escreve o blog Psicoanalisando quando lhe sobra tempo e também o Blog da TiaBeth. Ele não tem diabetes.
