
Sou jornalista, e na minha carreira de escritora e editora, eu já presenciei coisas horríveis. Digo isto porque, embora não exatamente me sinta bem – eu tenho a pele muito grossa.
Mas quando se trata do diabetes tipo 1 de meu filho, o que as pessoas dizem, mesmo involuntariamente, fico surpresa com o quão profundamente algumas observações me machucam.
Eu ouvi crianças dizerem coisas para o meu filho de oito anos de idade (diagnosticado há mais da metade de sua vida), tais como, “Fico feliz por não ter diabetes” ou chamá-lo de “sangue grosso”. E fico sempre impressionada com a forma com que meu filho – um garoto feliz e de boa índole – passa por isso. Ele dá de ombros e segue em frente com o que está fazendo.
Há uns dois meses atrás eu levei meu filho a um dentista local que oferece às crianças da escola uma aplicação de selante gratuitamente em seus molares. Selantes dentários são revestimentos plásticos colocados sobre as superfícies de mastigação dos dentes de trás para evitar cáries.
Pelo fato de ter diabetes tipo 1, um conjunto interminável de fatores como adrenalina, medo, alimentos, doença, surtos de crescimento, o nome que for, pode afetar seu açúcar no sangue. No seu caso, a hipoglicemia é especialmente assustadora e imprevisível durante a noite, enquanto dorme.
Talvez alguns lançamentos extras do futebol antes de dormir? Isso abaixa o açúcar. Um jogo animado de videogame? Também abaixa. Sopa de tomate para o jantar? Abaixa a glicose. O vento sopra a oeste, um pássaro voou, meu filho estava vestindo verde? Tudo faz baixar a glicose para ele.
Brincadeiras à parte, o que quero dizer é, não existe tal coisa como níveis de glicose completamente estáveis, pelo menos em minha experiência de mãe com filho que tem diabetes tipo 1. Muitas vezes pessoas conhecidas e bem-intencionadas me perguntam, “Você tem tudo sob controle?” Bem, eu tento manter meu filho seguro e saudável. Eu o ajudo a manter um bom A1C. Nós visitamos regularmente a endocrinologista. Ensino o meu filho o que ele precisa saber tentando capacitá-lo. Essa é uma forma de gestão, suponho.
De volta ao consultório do dentista, a assistente passou os selantes nos dentes do meu filho. Depois disso, o dentista, a quem eu nunca tinha visto antes, veio até a sala verificar seus dentes. Eu disse a ele que meu filho tem diabetes tipo 1 e que estávamos lá recebendo os selantes como uma proteção extra. Muitas vezes, eu expliquei a ele, meu filho tem que tomar um suco de caixinha no meio da noite, quando o açúcar no sangue cai a níveis muito baixos. Meu filho sempre escova os dentes na hora de dormir e de manhã, mas eu me preocupava com os dentes.
– “Você lhe oferece suco no meio da noite?”, perguntou o dentista.
– “Sim. Ele tem diabetes tipo 1”, eu repeti. – “Às vezes, à noite, ele tem hipoglicemia, uma baixa de açúcar no sangue”.
– “E ele escova os dentes depois de você dar-lhe o suco?”
– “Não”, eu respondi. – “Ele mal acorda”. Posso até beliscá-lo à vontade, pensei. Ele nunca abre os olhos quando pico os dedos ou coloco um pouco de suco em seus lábios. Seria uma injustiça despertar a criança e arrastá-la até o banheiro para escovar os dentes toda vez que ele toma um gole de suco.
O dentista sussurrou algo para seu assistente sobre buscar alguma coisa. Ela rapidamente retornou com uma caixa de suco vazia e um saco plástico de açúcar branco.
Ele oscilou-los no ar e disse: – “Isto é o que você está colocando em seus dentes”.
Eu podia sentir meu rosto ficar quente.
– “Sim”, eu respondi. “Quando está com hipoglicemia, ele precisa de açúcar em seu corpo”.
– “Não há outra coisa que você pudesse dar a ele?”
– “Suco, no meio da noite, é o que funciona melhor. É o que sua endocrinologista prescreve”.
– “É isso o que as outras pessoas fazem?”
– “Sim.”
Ele caminhou um pouco.
– “Talvez”, ele me disse: – “você pudesse fazer um trabalho melhor de gerir a diabetes dele durante a noite”.
Apenas… Uau.
Como a maioria dos pais que cuidam de uma criança com diabetes tipo 1, eu faria qualquer coisa pelo meu filho. Eu faço tudo que posso e o meu melhor para ele. Eu o levei até este consultório porque, além de seus órgãos vitais, seus olhos, suas extremidades, eu também quero o melhor para seus dentes. Mas preciso pesar entre sua vida, – o que essas caixas de suco preservam muito bem no meio de uma noite assustadora – versus os dentes.
Honestamente, eu não me lembro o que eu disse naquele ponto. Talvez, muito atordoada, eu não tenha dito nada.
E ainda no consultório do dentista, percebi meu filho ainda reclinado na cadeira olhando para mim.
– “Você poderia, pelo menos, adicionar um pouco de água ao suco?”, perguntou o dentista.
– “Eu poderia tentar fazer isso”, respondi.
Conversamos mais um minuto ou coisa assim, e não me lembro mais o que foi dito. Nós apertamos as mãos. Agradeci-lhe pelo seu serviço de quatro selantes, e fiz-lhe uma doação de US $ 120.
Ao partirmos, ainda na direção da porta, seu assistente me entregou um pedaço de papel com uma anotação.
Já no automóvel, após afivelar o cinto de segurança, eu li: “Escove os dentes após consumir suco à noite ou discuta a administração diabética com a endocrinologista”.
Aquele papel ainda está em minha gaveta, à direita, ao lado da pasta de dente.
