
A primeira coisa que Melinda Wedding pensa quando acorda às 6h15, é verificar o açúcar no sangue de Carson, sua filha, para ver se ela precisa de uma dose de insulina.
“A diabetes tipo 1 é um trabalho constante”, me disse Wedding. “Ela não te dá tempo para descanso”.
Durante todo o dia, ela observa seu smartphone, o qual lhe fornece a leitura de açúcar no sangue de sua filha, até 100 vezes. Com esses dados vem centenas de decisões sobre quando Carson deve comer ou como usar a sua bomba de insulina. Todas as noites, Wedding acorda duas ou três vezes para verificar os níveis sanguíneos de sua filha novamente.
Se Carson perder uma dose de insulina – e às vezes ela o faz, visto ainda estar aprendendo a gerenciar sua condição – seu açúcar no sangue sobe. Ao longo do tempo, este aumento, se frequente, poderia levar a todos os tipos de efeitos adversos, de problemas cerebrais ou de estômago, até um coma ou falha renal.
Você acha que um novo dispositivo chamado de “pâncreas artificial” seria uma dádiva para alguém como ela? Projetado para tornar a administração de insulina menos complicada, automatizando esta função, o MiniMed 670g produzido pela Medtronic foi chamado de “revolucionário” e uma “virada de jogo” após a Food and Drug Administration (FDA) tê-lo aprovado em setembro.
Mas famílias como os Weddings, dizem que as virtudes do dispositivo, previsto para chegar ao mercado no início de 2017, tem sido incrivelmente exageradas.
Para começar, ele não é um verdadeiro pâncreas artificial – ele só automatiza a entrega de um tipo de insulina – e os pacientes que a utilizarem ainda terão que fazer muita coisa para gerir a sua condição. “Eu odeio [o nome]”, resumiu Wedding. “Isso dá a conotação de que o problema está resolvido, quando está longe disso”.
O dispositivo também não faz nada para corrigir um dos problemas mais prementes que enfrentam os 1 milhão de pessoas com diabetes tipo 1 na América: O custo da insulina, que está subindo tão rapidamente que alguns pacientes estão sendo forçados a reduzir ou mesmo pular as doses que lhes salvam as vidas.
Em resposta, os médicos estão se voltando para prescrições de insulinas mais antigas, que são mais baratas, pois assim os pacientes podem pagar a medicação. “Nós estamos tentando ensinar os médicos a usar insulinas da década de 1980”, disse Irl Hirsch, um médico especialista em diabetes e pesquisador da University of Washington School of Medicine. “À medida que falamos em avançar com [o novo pâncreas artificial], na realidade estamos indo é para trás”.
Ter diabetes tipo 1 significa fazer o trabalho que o pâncreas não pode fazer – manualmente
Vamos fazer uma pausa para uma rápida revisão da diabetes tipo 1. Em cada corpo humano, as células são alimentadas por glicose, a energia que precisamos para viver. Para conseguir produzir a glicose, o aparelho digestivo decompõe carboidratos, como massas, doces, ou pão. A glicose, em seguida, viaja para dentro da corrente sanguínea – mas precisa do hormônio insulina, que é feito no pâncreas, para ser capaz de se mover à partir do sangue para as células.
No diabetes tipo 1, que afeta cerca de 5 por cento das pessoas com diabetes nos EUA, o sistema imunológico ataca as células produtoras de insulina no pâncreas, deixando o corpo com pouco ou nenhum hormônio. Ao contrário de muitos casos de diabetes tipo 2, o surgimento do tipo 1 não tem nada a ver com a dieta ou estilo de vida; sua causa ainda é desconhecida. E não pode ser controlada com dieta e exercício sozinhos, como o tipo 2 que, por vezes, pode. Então, as pessoas com diabetes tipo 1 dependem de infusões ou injeções de insulina através de seringas ou bombas.
Algumas pessoas com diabetes também usam um outro tipo de dispositivo – um monitor contínuo de glicose – para medir seus níveis de açúcar no sangue e descobrir a quantidade de insulina que precisam. Estes dispositivos vêm com sistemas de alerta que avisam os pacientes usuários quando seus níveis de glicose estão muito altos ou baixos. (Carson usa um – é o que sua mãe verifica para saber como anda a saúde de Carson.)
Então, basicamente, a gestão da diabetes Tipo 1 requer que os pacientes verifiquem continuamente os seus níveis de açúcar no sangue e apliquem uma dose de insulina em conformidade. É por isso que durante a última metade do século, os pesquisadores estiveram em uma missão para desenvolver um dispositivo para pessoas com diabetes automatizassem parte do trabalho que o pâncreas deixa de fazer. Eles chamaram este Santo Graal de “pâncreas artificial”.

Como o novo dispositivo Medtronic tenta reduzir o incômodo
O sistema Medtronic é o primeiro no mercado dos EUA mais próximo desse Santo Graal. O dispositivo utiliza um algoritmo de computador aprovado pela FDA, que responde à uma informação recebida por um sensor de glicose contínuo no sangue, fornecendo a insulina para o corpo automaticamente quando necessário.
Especificamente, o sistema envolve uma bomba de insulina com um cateter que infunde a insulina no sangue, bem como um sensor de glicose. Ambos os dispositivos são tipicamente inseridos na pele em torno do abdômen. O sensor mede continuamente os níveis de glicose do paciente e a bomba fornece insulina com base nas necessidades em tempo real do usuário.
“Este dispositivo é definitivamente um avanço”, disse Thomas Donner, diretor do Johns Hopkins Diabetes Center. De acordo com um importante estudo realizado com o MiniMed 670g, publicado no JAMA, os pacientes que usaram o dispositivo por 12 semanas melhoraram o controle de suas diabetes (melhores níveis de A1C, menor variabilidade de glicose, e nenhuma baixa de glicose no sangue grave ou cetoacidose diabética, que é um complicação grave da diabetes).
“Mas”, Donner acrescentou, “este é um avanço incremental.” Isso porque o dispositivo não é realmente totalmente automatizado.
Existem dois tipos de insulina no corpo – basal e bolus – e o dispositivo automatiza só a entrega da insulina basal. Muitas vezes chamada de insulina de fundo, a basal é o que ajuda dar a força ao corpo entre as refeições. Ela mantém o açúcar no sangue estável, quando as pessoas não estão comendo.
Bolus de insulina é o que é necessário para uniformizar os níveis de glicose no sangue após uma refeição. Para fazer a aplicação, as pessoas com diabetes precisam contar a quantidade de carboidratos que ingerem e depois calibrar sua dose de insulina de ação rápida capaz de cuidar desses carboidratos. Com o novo “pâncreas artificial”, os pacientes ainda precisam fazer essa contagem cuidadosa. Eles também precisam picar o dedo várias vezes ao dia para obter uma leitura de glicose e calibrar o sensor de glicose no dispositivo.
Os pacientes também precisam se preocupar com erros da bomba e do sensor, disse Donner. Às vezes os sensores não leem corretamente os níveis de glicose no sangue, o que pode induzir a uma dose inadequada, ou a tecnologia pode falhar por completo. “Os pacientes são dependentes deste conjunto que trabalha em tempo integral”, acrescentou. Mas eles não se preocupam.
“Isto não é como ser curado da diabetes – ainda é uma grande chateação”, disse Stuart Weinzimer, professor de pediatria da Escola de Medicina da Universidade de Yale que ajudou a desenvolver o dispositivo. “Mas eu diria que cada vez que surge uma nova invenção, nós oferecemos às pessoas um melhor controle da sua doença à custa de mais trabalho e mais responsabilidades. Esta é a primeira vez que fomos capazes de fazer um avanço na tecnologia que vai melhorar a vida de quem tem diabetes em geral – mas com um pouco menos de problemas”.
A Associação Americana de Diabetes , que tem vindo a defender uma melhora na tecnologia para aliviar um pouco o peso da gestão da diabetes, também achou que o dispositivo deu um passo incremental. “Eles estão ansiosos por um sistema que possa fornecer tanto o bolus quanto a insulina basal para fornecer o controle da glicose ideal e independente, para as pessoas com diabetes”.

Muitos pacientes com diabetes estão céticos com o novo dispositivo
Para alguns dos pacientes com quem falei, o novo dispositivo Medtronic não vai longe o suficiente. Eles disseram que ele é muito complicado e ainda requer um monte de vigilância por parte dos pacientes. Eles também se sentiram perplexos com as referências ao dispositivo como um “pâncreas artificial”. (Medtronic chama o dispositivo de um “sistema híbrido de ciclo fechado”, mas o FDA, a entidade que defende as pessoas com diabetes tipo 1 JDRF , e membros da mídia, todos referiram ao 670g como o primeiro “pâncreas artificial”).
“Eu acho que é enganoso”, disse Robert Vesco, 37 anos de idade, com diabetes tipo 1 e que foi diagnosticado há 10 anos. “A ideia de um pâncreas artificial sugere algo semelhante a um coração artificial … um dispositivo totalmente autônomo que não requer nenhuma intervenção por parte do paciente. Pelo contrário, este dispositivo requer um monte de cálculos mentais sobre a quantidade de insulina da dose após uma refeição”.
Melinda Wedding concordou. “Você ainda tem que fazer um monte de contas, por isso não é totalmente automatizado e não irá reduzir o número de decisões que tomamos para tratar a nossa filha”, disse ela.
Vesco não está interessado no dispositivo por outra razão, mais básica. Atualmente, ele tem que mover sua bomba de insulina em torno de sua barriga a cada poucos dias para evitar qualquer acúmulo de tecido cicatricial, o que prejudica a entrega de insulina.
Com o pâncreas artificial, ele teria outro dispositivo para picar em seu corpo já sobrecarregado – um processo que é sempre doloroso. “Eu não acho que os ganhos que você obterá [do novo dispositivo] são suficientes para justificar um furo adicional em seu corpo”, acrescentou. Quando ele tentou usar um sensor de glicose no passado, ele observou por muitas vezes resultados imprecisos ou “às vezes ele simplesmente parava de funcionar”. Então, ele está hesitante em contar com esta nova tecnologia.
Os médicos já estão ouvindo sobre essas frustrações de seus pacientes, disse Irl Hirsch da Universidade de Washington. Ele acredita que o MiniMed 670g é um avanço real – uma vez que as evidências sugerem que pode melhorar o controle do diabetes – mas ele tem tido dificuldades em convencer os pacientes disso. O motivo: Os erros no sensor de glicose provenientes dos dispositivos mais antigos deixaram alguns de seus pacientes céticos em relação ao novo sistema.
Os pacientes também enfrentam outros obstáculos como acessibilidade e custo. Tom Goffe, um paciente em Raleigh, Carolina do Norte, disse que estaria interessado em tentar o novo dispositivo, mas seu seguro de saúde lhe exigiria esperar mais três anos antes de ser elegível para a cobertura. (A maioria das seguradoras de saúde só autorizam o uso de um novo dispositivo, quando a garantia do dispositivo antigo se esgota) “É como se você possuísse um carro sem que pudesse negociá-lo por um novo até o término da garantia”, disse ele.
Medtronic não divulgou o preço do novo dispositivo, no entanto, está atualmente em reuniões com as seguradoras para determinar a cobertura para os pacientes já em 2017 após o lançamento. Um porta-voz da Medtronic disse que o fabricante está oferecendo um programa de desconto para as pessoas que se inscreverem primeiro, e espera que o dispositivo venha a custar entre US $ 6.000 e US $ 9.000, dependendo da seguradora e do plano contratado pelo paciente.
Esse preço pode ser alto demais para muitos pacientes, especialmente às pessoas com idade superior a 65 anos, uma vez que o Medicare atualmente não cobre a tecnologia de monitoramento de glicose contínua para este grupo. A endocrinologista de Yale, Kasia Lipska, disse “Não é justo que a tecnologia em si não possa ser útil para muitos. Ela poderia ter um maior alcance se fosse acessível”.
PS do Editor TiaBeth: Se você quiser ler um texto positivo sobre o tema, por favor clique no link abaixo:
Até se chegar a uma cura da Diabetes, precisamos de melhores ferramentas
