sábado, outubro 24, 2026
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Existe Educação em Diabetes no Brasil?

A charge reflete bem o atual quadro da educação em diabetes no país

O melhor tratamento é a prevenção. Economiza-se muitos milhões quando a população deixa de ficar doente. O investimento em uma rede de esgotos será compensado na redução dos gastos com a saúde daqueles que foram beneficiados pelo sistema. O mesmo acontece ao se construir uma escola pública: – crianças educadas serão adultos sadios. E em se analisando a prevenção de doenças, observamos nos países desenvolvidos a existência de profissionais conhecidos como educadores em diabetes que, estranhamente, parece não haver em nosso país.

O Educador em Diabetes no Mundo

De formação eclética, geralmente o educador em diabetes atua profissionalmente na área de saúde, seja como nutricionista ou enfermeiro, mas também pode nem ter feito faculdade. No exterior, podem, simplesmente, ser pessoas com diabetes ou próximas a estas, como pai, mãe ou alguém que passou, ou ainda passa muito tempo cuidando do diabetes de alguém.

Nos países de primeiro mundo, o educador em diabetes com certificação, além de receber reembolso do sistema de saúde, costuma fazer parte de uma equipe multidisciplinar de alguma instituição médica ou então trabalha de forma independente possuindo pacientes próprios, geralmente indicados por endocrinologistas, e atendendo-os em consultório particular.

Na prática, este profissional poupa o valioso tempo dos poucos médicos especialistas ao tirar dúvidas básicas e até avançadas de seus pacientes em relação ao tratamento. Ele acompanha a evolução dos resultados a fim de constatar o sucesso da medicação,  ensina o funcionamento e como fazer o monitoramento da glicemia utilizando os glicosímetros, mostra o correto uso da caneta de insulina ou da seringa, fala dos efeitos colaterais dos medicamentos, orienta sobre alimentação e exercícios físicos, bombas de insulina, entre outros.

O atendimento médico no Brasil

No Brasil, sabemos que a quantidade de médicos especializados do setor público ou privado, é insuficiente para o atendimento de nossa população com diabetes, que aumenta num ritmo muito mais rápido do que eles são formados. Por isso o atendimento no qual se dá o diagnóstico é, às vezes, o único atendimento que o paciente terá por anos. E geralmente acontece com médicos clínicos ou de outra especialidade sem conhecimentos adequados em diabetes onde, invariavelmente, são dadas orientações genéricas, sendo prescrito o tratamento padrão: metformina, exercícios e dieta.

Mesmo para a população “abastada”, aquela que paga por um plano de saúde, não há garantias de um atendimento satisfatório, visto que nem todos os endocrinologistas do catálogo do plano têm conhecimentos suficientes sobre diabetes. Além disso, as consultas nos dias de hoje costumam durar, no máximo, 30 minutos, tempo insuficiente para se oferecer instruções para os mais complexos aspectos do tratamento.

Por este motivo, no Brasil, muitas pessoas acabam recorrendo à outras fontes de informações, sendo a internet a mais popular delas. As Associações de Diabéticos também oferecem auxílio a quem procura orientações sobre tratamentos ou sobre como obter medicamentos. Infelizmente, poucas cidades possuem uma Associação, e a grande maioria delas é carente de recursos humanos e financeiros, visto depender da participação voluntária de seus membros e, praticamente, nenhum incentivo governamental.

A Educação em Diabetes no Brasil

Dizer que no Brasil não há educadores em diabetes não é dizer a verdade. Na realidade, eles existem, porém a quantidade é tão irrisória quando comparamos com o número de pessoas com a doença, que pode-se dizer não existir. Os cursos oferecidos para a formação de educadores são raros e, quando programados, são dispendiosos e realizados em somente algumas poucas cidades.

Ainda sim, no Brasil, os educadores em diabetes existentes ora são empregados de laboratórios farmacêuticos e trabalham com divulgação e demonstração de seus produtos, ora trabalham nas poucas clínicas especializadas multi-profissional, sob supervisão, orientando pacientes indicados pelo médico do local.

Seria impensável em nosso país o Educador em Diabetes trabalhar por conta própria em consultório particular. Pela legislação em vigor, muito provavelmente ele seria processado pelo Conselho de Medicina, por exercício ilegal da profissão, já que a classe médica iria considerar esta função exclusiva de sua categoria e jamais permitiria que outros profissionais, não médicos, exercessem esta atividade sem supervisão. Mesmo não havendo a prescrição de medicamentos. O Ato Médico, projeto de lei que os médicos buscam aprovar no Congresso, é uma prova de que, para eles, delegar funções e criar uma possível concorrência no futuro não é um bom negócio.

Internet: solução para quem busca informações sobre diabetes
Internet: solução para quem busca mais informações sobre diabetes

E considerando que até médicos especializados possuem dificuldades e falta de tempo para se atualizarem sobre os últimas drogas e tratamentos do universo diabetes, nem médicos cubanos, nem programas sociais como o Saúde da Família, teriam condições de levar a melhor informação e orientação sobre a doença para a população mais necessitada. Esta é uma grave questão de saúde pública que o Ministério da Saúde, até o momento, não parece ter tomado conhecimento, talvez acreditando que tudo vá se resolver sozinho, ou quem sabe, seja um problema para o próximo governo.

Soluções para a Educação em Diabetes

Se um dia os órgãos governamentais quiserem solucionar este problema, em vez de patrocinar congressos sobre diabetes cujas grades de programação não dedicam 15 minutos sequer para a educação em diabetes no país, poderiam copiar projetos como o realizado pelo Sistema de Saúde do Reino Unido, que mesmo sendo um país de dimensões reduzidas, incentiva a disseminação da informação e educação em diabetes pela internet. E já que não possui meios próprios para isso, poderia “terceirizar” o serviço, patrocinando sites independentes especializados em diabetes, para que houvesse, por parte destes, maior dedicação e esforço mais aprimorado na tarefa de divulgação. No Brasil, as páginas de internet que existem não contam com nenhum estímulo financeiro e dependem, única e exclusivamente, da boa vontade daqueles que a administram.

Além do incentivo para a Educação em Diabetes via internet, que tem o alcance geográfico nacional, o governo poderia auxiliar na manutenção das Associações de Diabéticos, oferecendo, não só auxílio financeiro, mas apoio logístico para a realização de mutirões de saúde, distribuição de insulinas e kits com suprimentos para gerenciamento da diabetes, como monitores de glicose e suas tiras.

Além disso, nas cidades onde ainda não existe Associação, através de ações afirmativas juntamente com as prefeituras, poderia discutir o problema e oferecer espaços para reunião de pessoas com diabetes, interessados ou parentes, e providenciar auxílio burocrático para facilitar a criação dessas Associações.

Não se pode contar apenas com a boa vontade da sociedade civil para resolver os problemas de saúde pública. Sem o apoio governamental, a Educação em Diabetes no Brasil não vai chegar até aqueles que mais necessitam, e vai continuar como está atualmente, ou seja, invisível.

Ney Limonge – é psicanalista, administrador, criador, editor do TiaBeth.com, escreve o blog Psicoanalisando  quando lhe sobra tempo e também o Blog da TiaBeth. Ele não tem diabetes.

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