
No ano passado, o New England Journal of Medicine publicou um artigo chamado “Os últimos 200 anos da Diabetes.” O artigo descrevia alguns avanços na compreensão e tratamento desta doença, como a descoberta da insulina e do desenvolvimento dos monitores pessoais de medição do nível de glicose no sangue, mas não dizia muito sobre mudanças do modo de viver com diabetes. Porém não podemos negar que houve uma evolução.
Para ilustrar esta evolução alcançada pela indústria, a Dra. M. Donna Younger, uma médica que trabalhou em um hospital especializado por mais de 50 anos, deu um pequeno testemunho de como era difícil ser diabético há alguns anos.
Começou dizendo que iniciou seu trabalho em 1959. “Naquela época não tinha como determinar rapidamente se alguém se encontrava em coma diabético porque o nível de açúcar no sangue estava muito alto ou muito baixo. Com alguma sorte, o laboratório poderia tirar esta dúvida em até duas horas”. Como bem sabemos, esta informação é fundamental para o tratamento do diabético, pois quem está com o açúcar elevado (hiperglicemia) precisa de insulina, enquanto alguém com baixo nível de açúcar no sangue (hipoglicemia) precisa de glicose, e precisa rapidamente.

Medir a glicose hoje é fácil e pode durar até 5 segundos. Mas na década de 60, de acordo com a Dra. Younger, não havia muita opção: “- Era necessário ferver algumas gotas de urina com um corante chamado solução Bento, deixando a mistura esfriar e em seguida olhar para a cor que podia variar de azul (normal ou hipoglicemia) até cor de tijolo (hiperglicemia)”. Posteriormente vieram as tiras de papel que mudavam de tonalidade conforme a concentração de açúcar na urina.
A aplicação da insulina não era menos complicada. Aplicava-se através de uma seringa reutilizável com uma agulha de bom tamanho. Para higienização, a seringa deveria ser fervida entre as utilizações e a agulha embebida em álcool. E pelo fato das agulhas se degradarem com o uso, as pessoas passavam horas afiando-as em uma pedra de amolar. Como se tudo isso fosse pouco, ainda era difícil calibrar a dose de insulina a ser tomada.

Como consequência de todas essas dificuldades, não eram poucos os casos de cegueira, problemas com nervos e circulação, resultando em um bom número de amputações. Felizmente o surgimento dos dispositivos de medição imediata do nível de glicose no sangue e o desenvolvimento de diferentes tipos de insulina, possibilitaram um melhor controle dos índices glicêmicos que, por sua vez, ajudaram a reduzir as complicações provenientes da diabetes.
Apesar de todo avanço e do enorme conhecimento adquirido sobre a diabetes, atualmente constatamos existir um rápido aumento de casos de pessoas com diabetes tipo 2, e o pior de tudo, ou seja, a existência de cegueira, problemas nos nervos e ainda um bom número de amputações.
De acordo com o artigo de aniversário no New England Journal of Medicine, “estamos indiscutivelmente pior do que estávamos em 1812”. Em 1960, menos de 2 milhões de americanos tinham diabetes. Desde então tem havido uma explosão no número de pessoas com diabetes tipo 2. “Se as tendências atuais continuarem, estima-se que 1 em cada 3 adultos americanos terão diabetes (95% dos quais com diabetes tipo 2) em 2050”.

Desses quase 60 anos de história da diabetes contada pela Dra. Younger, eu mesma vivi (e ainda vivo 🙂 ) por mais de 30 com o tipo 1 que, para minha sorte, foram os últimos anos. Reconheço que passei por algumas dificuldades, porém nada muito traumático como aquelas experiências contadas acima.
Até a década de 80, no Brasil, pelo que me lembro, não se encontrava farmácia especializada em diabetes com facilidade. Se encontrássemos, a compra de suprimentos e de aparelhos de monitoramento de glicose eram relativamente caros. Uma vez eu comprei um aparelho e deixei de usá-lo quando acabou suas tiras reagentes pela primeira vez.
Também me veio à lembrança casos pitorescos como a compra de uma reluzente pistola prateada para aplicação de insulina. Ela era moderníssima para época, pois não era necessário o uso de agulhas. Sinceramente não me lembro onde se encontra atualmente, mas talvez hoje nem pudesse embarcar em um avião carregando uma delas.
Na década de 90 ficou mais fácil comprar tudo com a abertura do mercado. Foi a época da importação. Hoje em dia, sem sair de casa, entro na internet e solicito todos os medicamentos e suprimentos através da farmácia online. Dependendo da hora do pedido, no dia seguinte antes das 10 horas chega em minha residência.
Pode-se dizer que isto é evolução? Sim, isto é evolução, mas evolução de verdade, que eu e outros milhões de diabéticos esperamos um dia testemunhar, seria ver a cura do diabetes. Adoraria que a história do diabetes terminasse com 201 anos.
Raquel Limonge, tem diabetes do tipo 1 há mais de 30 anos, é psicóloga, desenhista industrial e editora do TiaBeth.com.
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