
Quando eu era criança, o Brasil era um país predominantemente católico. Invariavelmente durante a Páscoa, sempre às sextas-feiras, passava a paixão de Cristo em diversos canais da televisão. Diferente das versões mais modernas, os filmes antigos seguiam o roteiro original que se encontra escrito no Evangelho. A história é bem conhecida, e não existindo TV à cores naquele tempo, o tom cinzento do filme tornava o drama mais tenso.
Todo ano era sempre igual, começava tudo bem e ia assim até quase seu final. Havia os milagres, as parábolas, os ensinamentos, tudo perfeito, mas quando chegava o momento da condenação de Cristo, tinha início a parte dolorosa do filme. Enquanto carregava sua cruz, Jesus era impiedosamente açoitado. A dor que sentia foi agravada quando os soldados romanos confeccionaram uma coroa de espinhos e a puseram sobre sua cabeça, proclamando-o rei dos judeus. Logo após esta coroação simbólica, via-se filetes de sangue escorrendo de sua testa.
O ápice do sofrimento ainda estava por vir. No topo do Monte das Oliveiras em Jerusalém, os romanos iniciaram os procedimentos para cumprir a sentença. Colocaram a cruz no chão e puseram Jesus deitado sobre ela. Lenta e vagarosamente martelaram imensos cravos sobre suas mãos e pés a fim de, nela, afixá-lo.
Nesta parte do filme, eu baixava a cabeça para não testemunhar tamanha barbaridade sendo cometida, mas voltava a assistir logo depois quando a cruz era erguida. O filme seguia e à partir de então, eu só ficava imaginando como Jesus conseguia suportar aquela dor. E quando pensava que todo o repertório de crueldades daqueles algozes tinha se esgotado, um soldado romano aproximou-se de Jesus e com a ponta de sua lança, furou o seu abdômen. Depois de morto, o suplício tinha fim e o filme voltava a ficar menos tenso.
Qualquer dor me causa desconforto, e mesmo hoje eu mal consigo fazer um exame de glicose. Na realidade não me lembro de ter feito algum na vida, mas ironicamente casei-me com uma mulher diabética do tipo 1. Ela fura seus dedos várias vezes ao dia para verificar o nível de açúcar no sangue, e cada vez que a observo fazendo isto, a lembrança da paixão de Cristo, narrada acima, me vem a cabeça. Sinceramente, fico solidarizado.
O sangue que eu via escorrer pela testa de Jesus, hoje escorre por sobre a cômoda do quarto, em alguma camisa, sobre o interruptor do banheiro de casa e sabe-se lá mais aonde. Por sorte, minha mulher nunca pensou em possuir uma bomba de insulina, porque se a usasse, cada vez que ela fosse colocar aqueles sensores na barriga, fatalmente eu iria me lembrar também da terrível estocada que Cristo recebeu no abdômen quando já estava crucificado.
Pode parecer exagero de minha parte comparar uma picada no dedo para exame de glicose, com os pregos enfiados nas mãos e pés de Jesus Cristo. Mas dor é algo pessoal, sabe da dor quem a sofre, sabe da dor quem a tem. Eu sofro por imaginação, e neste aspecto minha dor é imensa.
E se você puder pegar todas as picadas que um diabético do tipo 1 dá em sua vida para fazer um exame de glicose, somasse todas elas e as mensurasse numa escala de dor, talvez o resultado fosse o equivalente à dor de uma crucificação, não?!!
Ney Limonge – é engenheiro, psicanalista, criador, administrador, editor do TiaBeth.com, escreve o blog Psicoanalisando quando lhe sobra tempo e também o Blog da TiaBeth. Ele não tem diabetes.
