País do arroz com feijão, é crescente no Brasil o número de adeptos a formas alternativas de alimentação. Motivadas por um progressivo senso de cuidado com o planeta, as pessoas se engajam no vegetarianismo, passam ao veganismo e cada vez mais alcançam o crudivorismo – modelo de alimentação que não processa termicamente os alimentos, privilegiando crus e vivos. Em Uberlândia, há pelo menos cinco pessoas em transição à alimentação viva.
O movimento foi introduzido no Brasil nos anos 1990 pela pesquisadora Ana Branco. Entre os autores referenciais no País, está Daniel Francisco de Assis, que esteve em Uberlândia durante seis edições da Semana Detox, promovida pela nutricionista uberlandense Isabella Ferreira. Especialista pelo Natural Gourmet Institute, de Nova York, Estados Unidos, Isabella Ferreira disse que os autores usam a temperatura do corpo como referência para o aquecimento da comida, entre 37ºC e 46ºC.
Além da perda de nutrientes e produção de toxinas causadas pelo cozimento dos alimentos em altas temperaturas, há um comprometimento da atividade enzimática, o que prejudica a metabolização, segundo a nutricionista. “O corpo tem que gastar energia extra para produzir novas enzimas para a digestão, o que provoca um desgaste, levando à típica sensação de peso após a refeição”, afirmou Isabella Ferreira.
De acordo com a especialista, a alimentação viva também exclui da dieta os alimentos industrializados e produzidos à base de agrotóxicos, que dificultam o processo desintoxicante do corpo e sobrecarregam fígado, intestino e glândulas. “Por isso, a prática também contribui para a melhora de doenças crônicas, como obesidade, diabetes e até mesmo câncer”, disse Isabella Ferreira.
Porém, por se pautar na alimentação vegana e à base de crus e vivos, o crudivorismo exclui uma série de alimentos do prato. “Os adeptos devem ter uma dieta muito equilibrada e diversificada para não terem deficiências nutricionais”, afirmou a nutricionista. Segundo ela, os nutrientes menos comuns na prática crudívora são a gordura Ômega 3 e a vitamina B12. Por isso, a dieta deve ser rica em linhaça e chia – que contêm Ômega 3 – e em sementes germinadas, de grande valor proteico.
Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design da UFU, Sabrina Maia, de 37 anos, é crudívora há dois anos e meio. Ela concilia uma dieta vegana baseada em alimentos crus com a prática do crossfit. “Minha experiência prova a possibilidade de ganho de massa muscular a partir de dietas sem proteína animal. Equilibrar o treino com a alimentação viva é o maior desafio. Complemento minha alimentação com suplementos crudívoros”, disse Sabrina Maia.

Alimentação é prioridade de crudívoros
Os adeptos do crudivorismo são, em geral, pessoas empenhadas em uma mudança de estilo de vida, que têm ampla consciência de saúde e inspiram pessoas a terem a alimentação como prioridade. Já praticam o veganismo, já se alimentam de produtos orgânicos, já preparam as próprias refeições e até mesmo produzem os próprios alimentos.
Quando a reportagem do CORREIO de Uberlândia chegou na casa de Nilza Coelho, de 59 anos, ela preparava no seu “liquidificamor” um suco verde vivo. “Na nossa cozinha, só tem amor, nada de dor. É total gratidão à terra”, disse a culinarista vegana, adepta da dieta crudívora há um ano. Ela ministra cursos para disseminar os benefícios da mudança de estilo de vida.
A youtuber Fernanda Fonseca, de 31 anos, pratica o crudivorismo há oito meses e compartilha os benefícios e desafios da experiência no canal Vegananda, no Youtube. Ela iniciou a transição para a alimentação viva depois que se mudou de Uberlândia para o exterior. “O Brasil precisa ter mais formadores de opinião puxando o movimento. A maioria das informações ainda está em inglês”, afirmou Fernanda Fonseca.

Obstáculos na transição de estilos
Apesar de soar radical por propor uma alimentação restrita a crus e vivos, a adesão ao crudivorismo não é tão desafiadora, já que pressupõe uma dieta vegana. “Não como nada de origem animal, nem alimentos industrializados, nem pães e bolos há sete anos. O crudivorismo foi consequência. Os maiores desafios são deixar o arroz com feijão e os alimentos quentes em dias frios”, disse Sabrina Maia.
A youtuber Fernanda Fonseca teve uma recaída de uma semana desde que iniciou a transição à alimentação crua e viva. “Comi feijão e batata-doce, mas já tinha me acostumado com a digestão de crus. Então, senti um peso muito grande, mais lentidão, calor e preguiça. Percebi que não queria comer o feijão, mas resgatar o conforto que me trazia.”
O servidor público Lucas Coutinho, de 28 anos, iniciou a transição ao crudivorismo um mês depois de aderir ao veganismo, há um ano e meio. “Tirando o preconceito das pessoas e a falta de opções de restaurantes, a transição é tranquila. Mas, depois de quatro meses no crudivorismo puro, percebi que a comida cozida não é tão prejudicial, se feita em poucas refeições”, afirmou Coutinho.
Benefícios do Crudivorismo
- Vitalidade e aumento da energia
- Retorno à saúde plena
- Regeneração dos tecidos
- Melhoria da concentração e criatividade
- Sono reparador
- Aumento de energia
- Pele mais clara
- Perda de peso
Riscos
- Deficiência de Ômega 3
- Deficiência de Vitamina B12
- Níveis mais elevados de homocisteína, o que causa enfraquecimento do sistema imunitário, e menores níveis de colesterol HDL (colesterol bom). Ambos são fatores de risco para doença cardíaca
- Deficiência de ferro e zinco
Cuidados
- A transição deve ser gradual e acompanhada por um especialista, para evitar deficiências nutricionais
- Pessoas com histórico de transtornos alimentares ou com baixo peso devem consultar seu médico antes de iniciar a transição
- Pessoas com hipoglicemia ou diabetes devem ter cuidado com o excesso de sucos e frutas

