
“O diabetes não me parou, ele me empoderou em direção às conquistas”. Foi assim que o inglês Gavin Griffith, de 24 anos, ganhou o mundo com o projeto DiAthlete Global Tour, para praticantes de esportes diagnosticados com diabetes. O ultramaratonista esteve neste final de semana em São Paulo dividindo um pouco da sua experiência e contou como a doença o impulsionou para vencer desafios de longas distâncias.
“Na época do meu diagnóstico [tipo 1], meus pais e eu ouvimos coisas muito negativas sobre o diabetes, desde a informação de que eu viveria apenas até os 50 anos, até os riscos que existiriam se eu praticasse esportes. Essa atitude negativa impactou minha condição nos primeiros anos. Com o tempo, compreendi melhor a mim mesmo, e adotei uma atitude positiva, me tornando um modelo para outros pacientes”.
Griffith é conhecido como “The DiAthlete” (O Diatleta, em tradução livre). Ele viaja o mundo a convite da Sanofi e já completou mais de 70 provas em seis continentes, incluindo o feito de correr 30 maratonas em 30 dias. Acompanhe a seguir um bate-papo do inglês com a reportagem do R7:
Seu tipo de diabetes não é congênito. Quando e como você soube do seu diagnóstico?
Descobri que tinha diabetes tipo 1 aos 8 anos de idade, em janeiro de 2000. Nunca tendo conhecido nada sobre a diabetes, foi um grande choque no começo. Um pouco antes do diagnóstico, o Natal de 1999 foi bem desagradável. Eu peguei uma gripe, junto com todos na minha em casa, mas a diferença foi que eles se recuperaram dentro de uma semana, enquanto meus sintomas se alteravam. Comecei a sentir muita sede e uma vontade constante de urinar. Foi um diagnóstico muito tardio e, após a consulta dos médicos, me levaram para o hospital e confirmaram a diabetes.
E a ideia de viajar o mundo com o DiAthlete Global Tour? Como nasceu?
Foi em 2013, depois de eu ter me tornado um Líder Jovem em um programa da Federação Internacional de Diabetes que ocorreu em Melbourne, na Austrália. Eu representava o Reino Unido e, pela primeira vez, estava me relacionando com diabéticos da minha faixa etária de todas as regiões do mundo. Eu vi potencial nessas pessoas e meus olhos foram abertos para as diferentes situações que elas enfrentam em outras partes do planeta. Especialmente em países menos desenvolvidos e “em desenvolvimento”.
Qual o intuito do projeto?
Meu trabalho com o DiAthlete tem sido internacional desde que me desenvolvi como uma pessoa com experiências globais. E onde há muitas diferenças, eu também descobri que existem semelhanças que compartilhamos: o apoio de pares e o empoderamento são as principais. Então, nesta turnê global, queria enfatizar a necessidade de reunir as comunidades locais de diabetes com uma iniciativa ativa e popular e compartilhar positividade nessa causa em cada continente. Todos nós temos uma história para compartilhar. Essa é a minha motivação, os muitos campeões em torno deste mundo que vivem com diabetes e que estão dispostos a fazer algo a mais pelos outros.
Imagino que muitas vezes, antes de ser tornar um atleta, você deva ter ouvido que “não pode fazer isso ou aquilo devido a sua condição”. Como é olhar para trás e relembrar esses momentos?
Na minha vida eu ouvi muito isso – tanto antes, como depois do DiAthlete. Quando criança, na escola sempre houve essa preocupação estigmatizante: “Você não pode fazer isso, coma aquilo, faça isso porque tem diabetes”. Competi pela primeira vez aos 13 anos. E, por sinal, ganhei! Todo desafio de resistência que assumi desde então foi motivado pela vida com diabetes tipo 1. No entanto, sempre houve alguém me dizendo que não conseguiria fazer algo, que era muito arriscado ou que eu era imprudente. Ninguém queria realmente ajudar, apenas me colocar para baixo. E isso ajudou: sempre tive algo mais a provar. O diabetes não me parou, ele me empoderou em direção às conquistas.
Familiares e amigos tem um papel de apoio muito importante nesses casos. Mas, e você? O quanto sua história pode influenciar pessoas com uma doença como a sua?
Por mais que eu tenha um rosto bonito, eu não quero ser a cara do projeto. O objetivo é dar força, compartilhar as preocupações, o trabalho incrível e as histórias daqueles que vivem com essa condição. Acredito muito que as mudanças reais e positivas cresçam dentro de nós e, se eu posso encorajar os campeões que conheço – particularmente olhando para a próxima geração depois de mim – então eu cumpri o meu dever. Minha citação favorita de Mahatma Gandhi é: “Um sinal de um bom líder não está em quantos seguidores você tem, mas quantos líderes você cria”.
Em suas redes sociais vemos muitas fotos com crianças. Pode nos contar alguma história interessante desses meninos e meninas?
Nas minhas aventuras há muitas histórias para contar. Um dia vou escrever um livro, ou 10! Tive a sorte de ter experimentado tantas coisas e dei tudo para fazer essas aventuras acontecerem. Então acho que a mensagem é: você é quem faz sua própria sorte na vida. Relacionando isso com a diabetes, eu diria que nosso futuro está em nossas próprias mãos. Assumindo a responsabilidade de se cuidar, você tem a capacidade de conseguir qualquer coisa que você estabeleça para a sua vida. Quando criança eu odiava diabetes. Não aceitei, me rebelava. Construí um muro de Donald Trump e não me cuidei muito bem. O que só me fez sofrer. Mas, mude isso em sua cabeça! Aceite a condição e os deveres diários que acompanham. Assim eu consegui vencer, carreguei a Tocha Olímpica, fiz as coisas que eu mais gosto e vi o mundo!

Qual foi o seu maior desafio esportivo?
Um dos meus maiores desafios foi atravessar a minha terra natal, Grã-Bretanha, de cima para baixo. A ideia era correr uma maratona por dia durante 30 dias. Não houve nenhum apoio financeiro ou profissionais envolvidos. Éramos eu e a estrada. E no dia seguinte eu levantava e começava tudo novamente. Dia após dia. O que tornou o desafio possível foi a comunidade local de diabetes que se envolveu ao longo da jornada. Pessoas que dirigiam ao meu lado, que iam aos pontos de partida me dar suporte, corredores de apoio, ciclistas e crianças com diabetes que transportaram a minha Tocha Olímpica para os pontos de chegada. Eu vi o empoderamento se espalhando e é isso que me motiva.
Você tem provado que uma pessoa com diabetes pode realizar as mesmas tarefas de alguém em melhores condições de saúde. Por outro lado, em uma maratona, por exemplo, quão mais difícil é o desafio para um atleta diabético? O corpo sente a prova de outra maneira?
Eu levaria isso um pouco mais longe. Não só é possível eu fazer o mesmo que qualquer outra pessoa, como posso fazer muito mais! Viver com isso todos os dias alimenta minha motivação para conseguir mais. Quando se trata de desafios de longas distâncias, é claro que eu preciso ter um cuidado extra e ser consciente e responsável. Eu tenho que me preparar para o que vem pela frente, ajustar a insulina e consumir um nível planejado de carboidratos. Para ser bastante honesto, ter diabetes tipo 1 faz correr ser muito mais interessante! É como um Grande Prêmio de Fórmula 1: enquanto corro eu tenho que decidir quando “reabastecer” e aumentar meus níveis com carboidratos, testar se os açúcares estão em níveis adequados para garantir que tudo esteja no caminho certo, tomar decisões importantes que afetam meu gerenciamento de insulina e meu ritmo. É emocionante. Agora tire tudo isso da frente e você terá um corredor entediado competindo lá fora. (Risos).
O lado psicológico é muito importante em corridas de longas distancias. Como você cuida da sua mente? O seu diagnóstico já te atrapalhou, neste sentido, durante uma prova?
Existe um link – e não apenas no esporte – entre a vida com diabetes e saúde mental, e para ser honesto, uma das coisas que me ajuda é a corrida. Por ser um “modelo a seguir” e um ativista, a expectativa é que eu tenha um controle perfeito. E não é tão fácil. Eu gasto muito tempo lutando para apoiar os outros, pois é uma paixão na minha vida, mas é importante também cuidar da minha própria saúde. Me sinto no meu melhor quando estou em uma corrida, suportando um desafio extremo ou em uma aventura pelo mundo. Isso me livra do mundo real. Mas, o verdadeiro desafio vem no dia-a-dia da vida. Aqueles que fazem isso são os verdadeiros #heróisdiabéticos.
