domingo, outubro 25, 2026
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O milagre da insulina

A diabetes é uma doença crônica incurável que afeta milhões de indivíduos. Constituindo-se como a sexta causa de morte a nível mundial em 2015, a condição é responsável por inúmeros casos de cegueira, falha renal, ataque cardíaco e amputação. Atualmente, a diabetes pode ser tratada e os seus efeitos minorados ou postergados no tempo combinando medicação, dieta saudável e atividade física. Uma das traves mestras no tratamento da diabetes, responsável pelo bem-estar de milhões, é sem dúvida a insulina.

A descoberta e desenvolvimento deste hormônio miraculoso constituem sem dúvida um dos marcos da medicina, ciência e engenharia do séc. XX.

A diabetes é conhecida há mais de 2500 anos. A doença surge quando o organismo é incapaz de produzir insulina (tipo 1) ou de utilizar eficazmente a insulina que produz (tipo 2). Os efeitos são dramáticos na diabetes tipo 1, uma patologia que surge principalmente durante a juventude. No início do séc. XX, o melhor tratamento consistia numa dieta rigorosa que deixava os pacientes num estado de subnutrição quase tão perigoso quanto a própria doença. Na verdade, e antes da descoberta da insulina, poucos doentes sobreviviam mais de dois anos.

A insulina é um hormônio produzido no pâncreas que desempenha um papel crítico na regulação da absorção e utilização de açúcares como a glucose. Sem insulina, as células perdem o acesso ao seu combustível principal e o corpo definha. Mais ainda, a glicose acumulada no sangue torna-se tóxica, afetando vasos sanguíneos e danificando tecidos. Problemas graves surgem assim nos sistemas cardiovascular, urinário e nervoso, entre outros.

No início, evidências várias relacionavam a diabetes com o pâncreas e, em particular, com um grupo de células designado por Ilhéus de Langerhans (insulina deriva do latim insula, i.e. ilha). Em 1921, o assunto despertou o interesse de uma equipe heterogênea da Universidade de Toronto. O grupo incluía um cirurgião ortopédico (Frederick Banting), o catedrático de Fisiologia (John Mcleod), um aluno assistente (Charles Best) e um bioquímico habilidoso (James Collip).

Partindo de pâncreas de animais, os cientistas isolaram a insulina e, injetando-a em cães diabéticos, provaram a sua capacidade para controlar os níveis de glucose. A administração do extrato purificado num jovem em janeiro de 1922 produziu resultados imediatos e extraordinários. Estudos clínicos adicionais comprovaram o inquestionável valor terapêutico do “fármaco milagroso”, que devolvia a vida aos diabéticos moribundos.A exploração comercial da insulina iniciou-se logo após a descoberta, com a concessão de uma patente e o estabelecimento de parcerias industriais. Em 1923, dois anos após o início da pesquisa, a empresa americana Eli Lilly manufaturava já o novo fármaco em grande escala, utilizando para tal enormes quantidades de tecido pancreático suíno e bovino. A fama alcançada pelo grupo de Toronto e o impacto no tratamento da diabetes levaram o Comitê Nobel a atribuir o prêmio de Medicina de 1923 a Banting e Macleod “pela descoberta da insulina”.

Apesar dos inquestionáveis benefícios, a origem animal da insulina acarretava desvantagens importantes. Em primeiro lugar, as ligeiras diferenças na estrutura molecular da insulina animal face à sua congênere humana produziam efeitos secundários em muitos pacientes. Depois, a produção em larga escala era limitada pela dificuldade em obter pâncreas em grande número. Finalmente, os riscos de contaminação da insulina com agentes patogênicos animais (e.g. vírus) e da consequente transmissão aos pacientes não eram desprezáveis.

Estes problemas foram resolvidos nos anos 70 com o desenvolvimento de métodos de manipulação de DNA que permitiram transformar microorganismos comuns em verdadeiras fábricas de produção maciça de insulina humana. A insulina tornava-se assim, em 1979, o primeiro fármaco biotecnológico produzido por organismos geneticamente modificados. Hoje em dia produzem-se análogos da insulina humana com características apuradas que permitem um melhor controle dos níveis de glucose.

Graças à insulina, a diabetes tipo 1 deixou de ser uma doença fatal de jovens adultos, transformando-se num problema crônico com complicações nas fases tardias da vida. De forma paradoxal, este aumento da esperança de vida dos diabéticos amplificou a transmissão do componente hereditário da doença, contribuindo para a disseminação da diabetes tipo 1. Apesar deste efeito colateral, a insulina revolucionou o tratamento da diabetes, merecendo como poucos o epíteto de fármaco milagroso.

 

DUARTE MIGUEL PRAZERES

 

https://ionline.sapo.pt/612038

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