Eu tenho uma má notícia para quem tem diabetes tipo 2. Num dia de verão em 2003, o meu médico, clínico geral muito popular e com uma grande prática, não mediu palavras e me disse: “Você tem diabetes”.
Apesar da absoluta certeza do diagnóstico, ele foi vago sobre quais os passos que eu teria que tomar para começar a lidar com a doença. Houve o conselho habitual para fazer mais exercícios, eliminar o consumo de açúcar, evitar gordura e algo sobre retirar as batatas da minha lista de comestíveis admissíveis.
Essa foi a minha primeira suspeita de que ele não ia ser o meu conselheiro ou educador de diabetes no passar do tempo. Ele era um homem ocupado que sabia de muitas condições médicas, mas não era especialista em diabetes ou especialista em qualquer uma das outras doenças. A designação “clínico geral” deveria ter me alertado.
Então eu comecei a comprar livros sobre a diabetes tipo 2 e a navegar na internet entre as páginas que falavam da doença. Rapidamente eu percebi que enquanto havia algum consenso geral sobre o que a diabetes faz, não houve consenso à respeito de suas causas ou se ela poderia ser revertida ou não. Quando você lê livros como Revertendo o Diabetes ou O Milagre da Cura do Diabetes em 30 Dias, você começa a pensar que talvez possa imitar o Rocky, o Lutador, e sair por aí dando algumas marteladas decisivas na sua doença.
Então de repente você lê, O Primeiro Ano com Diabetes tipo 2, o que pressupõe que haverá um segundo ano de tipo 2, e um quinto e um 10 º e um 20º. Sem grandes estardalhaços, você apenas passa a lutar na retaguarda de forma inteligente e prolongada contra uma doença progressiva.
Assim, a minha primeira grande decisão foi utilizar a velha tática de “esperar o melhor e se preparar para o pior”. Mesmo que eu acreditasse de que em algum dia poderia reverter o meu diabetes, eu também daria todos os passos que já estava dando para gerenciá-lo.
Além de muita leitura, eu também realizei algumas experiências simples como fazer jejum, exercícios no dedo pós-punção, verificar os níveis de açúcar no sangue após a refeição e pelo fim de noite. Tudo isso para identificar o meu padrão individual a fim de conhecer a doença em termos específicos, e não em geral.
Depois de alguns meses de lidar com a diabetes tipo 2, eu comecei a notar que o meu médico não conseguia responder a algumas de minhas perguntas, ou nada sabia sobre os resultados promissores das novas pesquisas e dos novos medicamentos. Isso me alertou para uma responsabilidade que não tinha me ocorrido antes: Era realmente eu que estava no comando da minha doença agora. Ao contrário de alguém com câncer ou doenças do coração que precisa das habilidades de um profissional altamente qualificado para o tratamento, o próprio diabético do tipo 2 tem o privilégio e bastante tempo para descobrir a melhor abordagem para o tratamento de sua doença.
Algumas coisas que eu aprendi ao longo do caminho:
1. Os médicos não sabem de tudo. E nem deveriam saber. Eles são treinados para buscar o diagnóstico da doença através de uma série de possibilidades pelo caminho. Isso não significa que eles sabem tudo o que há para saber sobre determinada condição (a não ser que ele seja um especialista), assim como um motorista de táxi que sabe como chegar a qualquer restaurante da cidade, mas não sabe o que há no menu de cada um deles.
(No caso dos endocrinologistas, que sabem muito sobre diabetes, as minhas expectativas são maiores. Eu só me consultei com um ao longo da última década, e eu vou dizer que o homem sabe o que faz. Nós temos algumas grandes discussões e, ao final, eu sempre acabo me sentindo um pouco mais iluminado.)
2. Não acredite em tudo que você lê sobre diabetes. Pelo menos não de imediato. Quando eu comecei a estudar sobre a doença, percebi que algumas pessoas muito inteligentes tinham diferentes opiniões quando o assunto era diabetes tipo 2. Por exemplo, a Associação Americana de Diabetes não indicava a dieta de baixo teor de gordura e sim a de baixo-carboidratos enquanto que estudiosos como o Dr. Richard K. Bernstein achava a gordura amigável e o carboidrato um grande inimigo. Quem está certo?
O melhor que eu podia fazer era ver como os cientistas examinavam esta questão através de estudos sobre gorduras e carboidratos para assim saber quais as conclusões e medidas a tomar. Agora, 11 anos após o meu diagnóstico oficial, parece que o Dr. Bernstein estava certo o tempo todo. Mas, pacientemente, acompanhei o longo debate antes que eu pudesse, finalmente, decidir em quem acreditar.
3. Entenda que todo mundo que tem algo a dizer sobre diabetes tem algo emocional ou uma participação financeira na doença. (Minha participação monetária é modesta, eu sou pago para escrever para a revista Diabetes e Saúde). Isso não quer dizer que exista algo de errado em ter uma participação financeira em questões diferentes. Por exemplo, o Fundo de Pesquisa do Diabetes Juvenil depende das contribuições para o financiamento de uma cura para o tipo 1. O analista financeiro David Kliff, um editor honesto, fala sobre Diabetes com Investidores e não mede palavras quando se trata de oferecer sua opinião sobre vários medicamentos para a diabetes ou do mercado para eles, pois o dinheiro dos assinantes faz parte do fluxo de sua vida.
As empresas farmacêuticas investem milhões para criar novos medicamentos para a diabetes do tipo 2, o que significa que eles têm um interesse direto no retorno financeiro para cobrir seus custos. Cirurgiões bariátricos, que têm apresentado comprovadamente grandes resultados com pacientes do tipo 2 que se submeteram à cirurgia de bypass gástrico, são justificadamente fortes defensores de seu ofício.
Seja qual for a sua opinião sobre estas pessoas e organizações, o que eles fazem é legal e direito. Nenhum deles afirma ter uma cura ou diz conhecer o caminho que levará a uma eventual cura.
Não são como os simpáticos cavalheiros que anunciam em jornais de domingo, com ofertas de uma refeição grátis no salão de festas do hotel, convidando você para ouvir uma apresentação sobre como reverter totalmente a sua diabetes. As apresentações, sempre feitas por um alto-falante dinâmico, só acontece após o oferecimento de uma série de livros, DVDs e sessões de terapia pessoal, sempre a um preço exorbitante no caso de você decidir se inscrever. Jantar para dezenas de pessoas e aluguel de uma sala grande é caro para mantê-los. Alguém tem que pagar por isso, ou seja, as pessoas que são fisgadas por estes anúncios de jornal.
“Vai entender“. Essa é a resposta padrão que digo quando vejo ocorrer, às vezes, drásticas flutuações em meus níveis de glicose no sangue, ou quando vejo meu vizinho Paulo com incrivelmente bons níveis em jejum pela manhã, apesar dele ser do tipo 2 por anos. Ou mesmo quando a mais recente pesquisa mostra que o café é, e também não é, bom para você. “Vai entender“, eu digo.
Patrick Totty
